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Dois pesos, duas medidas

Decotelli expõe a presença do racismo estrutural até no governo federal

Brancos, os ministros Damares Alves e Ricardo Salles também mentiram sobre suas titulações acadêmicas, mas não tiveram nenhum problema em permanecer nos cargos. Ao contrário de Decotelli, negro, alvo de um verdadeiro linchamento

Publicado em 03 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

03 jul 2020 às 05:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

caioneri@mpf.mp.br

Jair Bolsonaro e o professor Carlos Alberto Decotelli da Silva, novo ministro da Educação
Jair Bolsonaro e o professor Carlos Alberto Decotelli da Silva, indicado e já exonerado da pasta da Educação Crédito: Reprodução/Facebook
Nomeado como novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli tornou-se um dos centros das atenções nos últimos dias. Antes de tomar posse, Decotelli pediu exoneração do MEC após revelações de falsidades em seu currículo e denúncias de plágio em sua dissertação de mestrado.
É inequívoco que Decotelli errou ao mentir e prestar informações falsas em seu currículo, inserindo titulações que, ao que tudo indica, ele mesmo sabia não possuir de direito. Entretanto, por mais reprovável que seja sua atitude, chama atenção que o tratamento que lhe foi dado (em especial pelo próprio governo federal) é bastante distinto da forma como foram tratados outros ministros do governo Bolsonaro em situações análogas.
"O que tirou o Ministério da Educação de Decotelli não foram as mentiras em seu currículo, foi a cor de sua pele. Reflexo de uma sociedade marcada por um racismo estrutural, em que os erros cometidos por pessoas brancas parecem ter menos peso que idênticos erros cometidos por pessoas negras"
Caio Neri - Articulista
A ultraconservadora Damares Alves, ministra da Família, já se apresentou em eventos como "mestre em Educação" e "mestre em Direito da Família", títulos que não possui. Ao ser questionada, a ministra respondeu que a palavra "mestre" é normalmente aplicada em igrejas para aqueles "que se dedicam ao ensino bíblico", seria um “mestrado bíblico”.
Já o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, assinou um artigo num jornal indicando titulação de mestre em Direito Público na Universidade Yale, título inexistente. Damares e Salles, mesmo mentindo sobre sua titulação acadêmica, não tiveram nenhum problema em permanecer nos respectivos ministérios, com o apoio incondicional de Jair Bolsonaro. Salles, inclusive, além de ter mentido sobre sua formação acadêmica, foi condenado por atos de improbidade administrativa cometidos quando era secretário de Meio Ambiente em São Paulo.
A diferença é que Damares e Salles, ao contrário de Decotelli, têm a pele branca. Todos eles mentiram sobre sua formação acadêmica, porém, apenas Decotelli foi alvo de um verdadeiro linchamento. A guarida que o governo Bolsonaro deu aos ministros brancos Damares e Salles não foi concedida a Decotelli.
Outros políticos brancos também mentiram sobre seus currículos. A própria Dilma Rousseff, quando de sua primeira candidatura, inseriu no seu currículo Lattes os títulos de mestre e doutora pela Unicamp, a despeito de ela nunca ter obtido tais títulos. Em 2002, com a indicação para o Ministério das Relações Exteriores, Celso Amorim foi anunciado como doutor pela London School of Economics, mesma informação que constava em seu currículo no Itamaraty, porém, ele também não obteve tal título. Outros que afirmaram ter títulos que não possuem foram o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e o prefeito do Rio, Marcelo Crivella.
Sem a pretensão de justificar as condutas de Decotelli, ao que tudo indica, se ele fosse uma pessoa de pele branca, não teria havido o linchamento, pelo contrário, ele contaria com o apoio de Bolsonaro e dos bolsonaristas, que apoiam incondicionalmente tudo que o presidente orienta. Por isso, o que tirou o Ministério da Educação de Decotelli não foram as mentiras em seu currículo, foi a cor de sua pele. Reflexo de uma sociedade marcada por um racismo estrutural, em que os erros cometidos por pessoas brancas parecem ter menos peso que idênticos erros cometidos por pessoas negras.
Assim como George Floyd provavelmente não teria sido morto pela violência policial caso tivesse a pele branca, Decotelli não teria sido linchado se não fosse negro, haja vista que ministros brancos que mentiram em seus currículos, continuam em seus cargos com o apoio público incondicional de seus pares.
Sim, Decotelli errou, porém, não há como não se constatar que vivemos numa sociedade com racismo estrutural, que naturaliza o modo como se vigia e se julga desacertos cometidos por pessoas negras. Por coerência, Damares e Salles também deveriam ter sido exonerados. Mas não foi uma onda moralizadora que ensejou a exoneração de Decotelli, foi um racismo estrutural disfarçado de bastião da moralidade.

Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaco.

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