Estamos adentrando à parte final de um 2022 que promete ser o início da saída do período pandêmico. Embora seja algo bom, não bastasse o desgaste social natural dos últimos quase três anos, estamos prestes a chegar ao segundo turno das eleições nacionais com forte polarização meada de impaciência e muita briga.
Em meio a esse cenário, diversas narrativas falsas ou impensadas são jogadas e compradas por grande parcela da população que, com a visão enevoada com todo tipo de informação, acaba por concluir equivocadamente, achocalhando com o grande pilar que sustenta o Estado moderno: a democracia.
A coisa começa por sistema falho que, contraditoriamente em prol da democracia obriga o cidadão a votar. Oi? O baluarte do princípio democrático, como num casamento duradouro, é a vontade de exercê-lo. A vontade própria de votar, de participar da vida pública. Em sendo obrigado, viola-se o essencial: a liberdade.
Mas a sociedade conseguiu ir mais longe nessa incongruência. Criou-se, nesse caldo social, a narrativa do voto útil. Se, num primeiro momento, ele era visto como aquele voto em quem está ganhando, sendo perdedor aquele que escolheu o candidato derrotado, num segundo nível dessa idiossincrasia antidemocrática, pune-se severamente aquele que não vota em ninguém, que anula ou vota em branco.
Eu mesmo fui vítima: num determinado grupo ao falar que não votaria em ninguém, sem mencionar que estaria em viagem durante o primeiro turno (sem tempo hábil para definir o voto em trânsito), fui severamente agredido, tido como um “isentão” pecador. A raiva que exalava daqueles que abominavam o voto nulo era tão severa quanto de aldeões que queimavam bruxas na idade média. Um chegou a falar que preferia que eu votasse no adversário do candidato dele, mas que não anulasse. Oi?
É bem verdade que ao definir um candidato, ao não ter uma opção ideal, é salutar que se decida por um para evitar outro. Todavia, existem situações em que para o eleitor tanto faz, para o mal ou para o bem (este último não é nossa realidade presidencial, definitivamente). Ou seja, ou tanto faz, qualquer candidato será um bom administrador ou, mais palpável nos dias de hoje, qualquer um continuará com o desastre na administração da coisa pública.
Fato é que, na defesa de um Estado Democrático de Direito, por mais que se discorde de alguém que não vota em ninguém, é fundamental que se preserve seu direito de fazê-lo ou de se omitir. Um voto anulado, antes de tudo, é um voto de protesto, um protesto silencioso e que, ao contrário do que se pensa, não é um cheque em branco, mas uma advertência de que o eleitor discorda de qualquer candidato e fará o que lhe estiver ao alcance para contestar ações impróprias do eleito.
É muito menos isento aquele que anula por protesto que aquele que escolhe um lado apenas para fazer parte de um grupo, para não se sentir excluído.
E convenhamos, quanto mais estudamos políticas econômicas, quanto mais vemos a evolução dos níveis de emprego, saúde e educação, apenas para ficar nos maiores reclames da sociedade, mais constatamos que as decisões são pautadas em pragmatismo e na cartilha econômica, do que em vãs ideologias apregoadas por alguns (candidatos, eleitores ou partidos).
Até porque é impossível, num Estado multifacetado e imenso como o Brasil, adotar na prática uma ideologia pura. Por aqui nunca houve comunismo, socialismo, liberalismo, social-democracia ou qualquer coisa do gênero, de forma pura. O governo militar se dizia liberal, mas havia censura, ditadura. FHC era um social-democrata que teve que abrir a economia com políticas liberais agressivas para controlar a inflação, e por aí vai. A alteração da taxa de juros, a Selic, pelo Banco Central, afeta mais a vida do brasileiro que grande parte das políticas públicas do presidente.
O importante, sobretudo, ao exercer a democracia nas urnas, é conhecer não apenas o candidato, que não passa de um símbolo, um garoto propaganda de um grupo. É fundamental que se conheça todo o grupo que está por trás do candidato (e que vai além do partido). Será que há um grupo que representa a política tradicional e outro que representa a renovação? Ou será que todos os grupos representam uma sobra espúria da velha política?
Enfim, menos ideologia, menos idolatria, mais pragmatismo e mais conhecimento sobre os efeitos que decorrerão de um ou de outro. De toda sorte, importando-se mais com sua opção e respeitando a decisão dos demais, é mais fácil escolher o candidato A, o candidato B ou nenhum dos dois.