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Eleições 2022

Voto nulo: quem é o isentão?

É muito menos isento aquele que anula por protesto que aquele que escolhe um lado apenas para fazer parte de um grupo, para não se sentir excluído

Publicado em 26 de Outubro de 2022 às 01:00

Públicado em 

26 out 2022 às 01:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

cassiomoro@gmail.com

Estamos adentrando à parte final de um 2022 que promete ser o início da saída do período pandêmico. Embora seja algo bom, não bastasse o desgaste social natural dos últimos quase três anos, estamos prestes a chegar ao segundo turno das eleições nacionais com forte polarização meada de impaciência e muita briga.
Em meio a esse cenário, diversas narrativas falsas ou impensadas são jogadas e compradas por grande parcela da população que, com a visão enevoada com todo tipo de informação, acaba por concluir equivocadamente, achocalhando com o grande pilar que sustenta o Estado moderno: a democracia.
A coisa começa por sistema falho que, contraditoriamente em prol da democracia obriga o cidadão a votar. Oi? O baluarte do princípio democrático, como num casamento duradouro, é a vontade de exercê-lo. A vontade própria de votar, de participar da vida pública. Em sendo obrigado, viola-se o essencial: a liberdade.
Mas a sociedade conseguiu ir mais longe nessa incongruência. Criou-se, nesse caldo social, a narrativa do voto útil. Se, num primeiro momento, ele era visto como aquele voto em quem está ganhando, sendo perdedor aquele que escolheu o candidato derrotado, num segundo nível dessa idiossincrasia antidemocrática, pune-se severamente aquele que não vota em ninguém, que anula ou vota em branco.
Eu mesmo fui vítima: num determinado grupo ao falar que não votaria em ninguém, sem mencionar que estaria em viagem durante o primeiro turno (sem tempo hábil para definir o voto em trânsito), fui severamente agredido, tido como um “isentão” pecador. A raiva que exalava daqueles que abominavam o voto nulo era tão severa quanto de aldeões que queimavam bruxas na idade média. Um chegou a falar que preferia que eu votasse no adversário do candidato dele, mas que não anulasse. Oi?
É bem verdade que ao definir um candidato, ao não ter uma opção ideal, é salutar que se decida por um para evitar outro. Todavia, existem situações em que para o eleitor tanto faz, para o mal ou para o bem (este último não é nossa realidade presidencial, definitivamente). Ou seja, ou tanto faz, qualquer candidato será um bom administrador ou, mais palpável nos dias de hoje, qualquer um continuará com o desastre na administração da coisa pública.
Fato é que, na defesa de um Estado Democrático de Direito, por mais que se discorde de alguém que não vota em ninguém, é fundamental que se preserve seu direito de fazê-lo ou de se omitir. Um voto anulado, antes de tudo, é um voto de protesto, um protesto silencioso e que, ao contrário do que se pensa, não é um cheque em branco, mas uma advertência de que o eleitor discorda de qualquer candidato e fará o que lhe estiver ao alcance para contestar ações impróprias do eleito.
É muito menos isento aquele que anula por protesto que aquele que escolhe um lado apenas para fazer parte de um grupo, para não se sentir excluído.
E convenhamos, quanto mais estudamos políticas econômicas, quanto mais vemos a evolução dos níveis de emprego, saúde e educação, apenas para ficar nos maiores reclames da sociedade, mais constatamos que as decisões são pautadas em pragmatismo e na cartilha econômica, do que em vãs ideologias apregoadas por alguns (candidatos, eleitores ou partidos).
Até porque é impossível, num Estado multifacetado e imenso como o Brasil, adotar na prática uma ideologia pura. Por aqui nunca houve comunismo, socialismo, liberalismo, social-democracia ou qualquer coisa do gênero, de forma pura. O governo militar se dizia liberal, mas havia censura, ditadura. FHC era um social-democrata que teve que abrir a economia com políticas liberais agressivas para controlar a inflação, e por aí vai. A alteração da taxa de juros, a Selic, pelo Banco Central, afeta mais a vida do brasileiro que grande parte das políticas públicas do presidente.
O importante, sobretudo, ao exercer a democracia nas urnas, é conhecer não apenas o candidato, que não passa de um símbolo, um garoto propaganda de um grupo. É fundamental que se conheça todo o grupo que está por trás do candidato (e que vai além do partido). Será que há um grupo que representa a política tradicional e outro que representa a renovação? Ou será que todos os grupos representam uma sobra espúria da velha política?
Enfim, menos ideologia, menos idolatria, mais pragmatismo e mais conhecimento sobre os efeitos que decorrerão de um ou de outro. De toda sorte, importando-se mais com sua opção e respeitando a decisão dos demais, é mais fácil escolher o candidato A, o candidato B ou nenhum dos dois.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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