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Vacinação contra a Covid-19

Associação das vacinas à Aids: notícia falsa que coloca vidas em risco

É lamentável termos de lidar com as inverdades vindas daqueles que juraram proteger o país e os cidadãos. É mais triste ainda testemunhar que o país não ganha em nada com esse comportamento. Pelo contrário: o Brasil apenas perde

Publicado em 28 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

28 out 2021 às 02:00
Ethel Maciel

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Ethel Maciel

ethel.maciel@gmail.com

Presidente Jair Bolsonaro tem sido relutante em reconhecer eficácia da vacina contra a Covid-19
Jair Bolsonaro: uma pessoa propagando notícia falsa (fake news) é responsável por colocar muitas vidas em risco, especialmente se ocupa cargos políticos de grande destaque Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Alguém que se propõe a administrar um lugar, seja qual for, precisa ter serenidade para não ser o foco dos problemas. Aquele que administra deve ter, ou ao menos planejar, a solução dos desafios que certamente irão surgir em toda gestão.
Infelizmente, esse não é o comportamento que temos presenciado no Brasil. Desde o início dessa pandemia, temos convivido com a autoridade máxima do Executivo sendo o grande disseminador de notícias falsas, que acabam colocando em uma situação de risco a vida de muitas pessoas
Nesta última semana, não satisfeito com a instabilidade do país, com a entrega do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que indiciou o presidente Jair Bolsonaro pelos seguintes crimes: prevaricação; charlatanismo; epidemia com resultado morte; infração a medidas sanitárias preventivas; emprego irregular de verba pública; incitação ao crime; falsificação de documentos particulares; crimes de responsabilidade (violação de direito social e incompatibilidade com dignidade, honra e decoro do cargo); crimes contra a humanidade (nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos), o presidente em mais um palco montado para uma atuação absurda, em suas costumeiras transmissões usando as redes sociais, disse que pessoas que tomaram duas doses do imunizante contra o coronavírus no Reino Unido estão desenvolvendo Aids.
Rapidamente, as sociedades científicas do país se manifestaram desmentindo a fala e prestando os devidos esclarecimentos. Em especial, o Comitê de HIV/Aids da Sociedade Brasileira de Infectologia emitiu uma nota informando, dentre outros fatos relevantes, que: não se conhece nenhuma relação entre qualquer vacina contra a Covid-19 e o desenvolvimento de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.
Pessoas que vivem com HIV/Aids devem ser completamente vacinadas para a Covid-19. Destaca-se, inclusive, a liberação da dose de reforço (terceira dose) para todos que receberam a segunda dose há mais de 28 dias. A nota reforça, ainda, o repúdio a toda e qualquer notícia falsa que circule e faça menção a essa associação cientificamente inexistente.
É importante reafirmar: a vacina não causa HIV. O vírus da imunodeficiência humana é transmitido quando alguém pratica sexo sem camisinha, compartilha seringa com outra pessoa ou recebe transfusão de sangue contaminado. A outra possibilidade de transmissão é da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e aleitamento. Para todos esses casos há medidas de prevenção e a Aids tem tratamento. Ainda não temos vacina contra o HIV, mas os avanços da tecnologia desenvolvida para a Covid-19 poderão ser usados para a produção desse imunizante no futuro.
No entanto, uma pessoa propagando notícia falsa (fake news) é responsável por colocar muitas vidas em risco, especialmente se ocupa cargos políticos de grande destaque. É lamentável termos de lidar com as inverdades vindas daqueles que juraram proteger o país e os cidadãos.
É mais triste ainda testemunhar que, além das vidas em risco, o país não ganha em nada com esse comportamento. Pelo contrário: o Brasil apenas perde.
É profundamente lamentável que essa situação possa prejudicar ainda mais a parcela mais sacrificada da população: aqueles que sofrem com a fome, com a pandemia e têm sofrido, ao longo dessa crise, com a desinformação. As violações se somam e vamos, no palco do absurdo, esperando que o último ato possa ser encerrado com justiça e que o respeito aos Direitos Humanos, em especial o direito à vida e à saúde, sejam garantidos aos cidadãos brasileiros.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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