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Responsabilidade coletiva

Resistência antimicrobiana: uma ameaça real que exige ação agora

Quando antibióticos deixam de funcionar, não é o futuro que está em risco — é o presente; a resistência antimicrobiana exige do Brasil ação imediata, coordenação entre setores e coragem política para mudar hábitos e salvar vidas

Publicado em 16 de Outubro de 2025 às 03:00

Públicado em 

16 out 2025 às 03:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

ethel.maciel@gmail.com

A resistência antimicrobiana (RAM) não é um problema do futuro. Ela já está aqui, comprometendo a eficácia de medicamentos que, por décadas, salvaram vidas. O que antes era uma infecção simples, tratável com antibióticos de uso comum, hoje pode se tornar um quadro grave e até fatal. A Organização Mundial da Saúde reconhece a RAM como uma das dez maiores ameaças à saúde global — e o Brasil tem papel fundamental nessa resposta.
Recentemente, um artigo publicado na The Lancet Regional Health – Americas destacou o desafio que o país enfrenta diante desse fenômeno. O texto, assinado por mim e outros colegas especialistas brasileiros e integrantes do Ministério da Saúde, analisa como o país vem se posicionando frente à resistência antimicrobiana e quais caminhos precisamos fortalecer.
medicamentos
Medicamentos: uso indiscriminado de antibióticos pode comprometer a eficácia deles no tratamento de doenças Crédito: Shutterstock
Nos últimos anos, o mundo avançou no debate. Em 2024, a 77ª Assembleia Mundial da Saúde aprovou uma resolução histórica para acelerar as respostas nacionais e internacionais à RAM. A segunda Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre o tema reforçou o compromisso dos países em investir em vigilância, prevenção e inovação. Tive o privilégio de fazer a intervenção em nome do Brasil para assumirmos o compromisso de reduzir a utilização indiscriminada de antimicrobianos sem um diagnóstico preciso da doença a ser tratada. Quando falamos em antimicrobianos estamos nos referindo aos: antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitários, medicamentos utilizados para tratar infecções causadas por bactérias, vírus, fungos e outros parasitas.
O Brasil esteve presente nesses fóruns — e agora, com o Plano Nacional de Resposta à Resistência Antimicrobiana (PANBR), consolida um marco importante. Este plano foi elaborado com base no princípio de “Uma Só Saúde”, reconhecendo que a saúde humana está profundamente interligada à saúde animal e ambiental. O uso indiscriminado de antimicrobianos, especialmente antibióticos — inclusive para acelerar o crescimento de aves —, pode comprometer a eficácia desses medicamentos no tratamento de doenças.
A resistência antimicrobiana é um processo natural, mas foi acelerada pelo uso inadequado de antibióticos e outros antimicrobianos. Isso ocorre quando microrganismos, como bactérias, passam a sobreviver mesmo após a exposição ao medicamento. O resultado? Infecções mais difíceis de tratar, internações prolongadas, custos elevados e aumento da mortalidade.
Estudos recentes estimam que, em 2021, mais de 1 milhão de mortes no mundo foram diretamente atribuídas à resistência bacteriana. Sem ações urgentes, esse número pode quase dobrar até 2050.
Na segunda-feira, dia 13 de outubro, a Organização Mundial da Saúde lançou o relatório global sobre a resistência antimicrobiana, e tive a oportunidade de apresentar os avanços e também os desafios para o Brasil. O relatório mostra o crescimento da resistência em todo o mundo. No Brasil, chama a atenção o aumento de quase 20% da resistência entre 2023 e 2024. Ainda que o país tenha expandido significativamente sua rede de diagnóstico e ampliado o número de hospitais que integram a rede de vigilância, é preciso melhorar a qualidade dos dados para termos uma visão mais ampla e precisa sobre o que deve ser feito em termos de políticas públicas. Um inquérito nacional de resistência antimicrobiana é o passo mais importante para obter informações mais consistentes — e isso é urgente.
É preciso reconhecer que transformar compromissos internacionais em resultados concretos dentro do país é o grande desafio — especialmente em um país com tantas diferenças regionais e imensas desigualdades. Ainda assim, essa é uma tarefa imprescindível para qualificar melhor as informações e compreender as realidades locais.
No Brasil, embora ainda faltem dados consolidados e sistemáticos, já sabemos que hospitais de todo o país enfrentam cepas multirresistentes, especialmente em unidades de terapia intensiva. O problema também se estende ao ambiente — onde resíduos de medicamentos e o uso de antibióticos em animais podem contribuir para a disseminação da resistência.
A resposta à RAM precisa ser coletiva. É uma questão que atravessa fronteiras e setores. O Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e as universidades públicas, vem ampliando a rede de vigilância e o acesso a dados laboratoriais sobre resistência microbiana, principalmente no comitê de uma só saúde que será responsável pelo lançamento de um plano nacional. Uma das ações desse plano terá o foco na resistência antimicrobiana.
Mas também é necessário que cada profissional de saúde se comprometa com o uso racional de medicamentos — em especial os antibióticos —, prescrevendo-os apenas quando realmente necessário e com base em diagnóstico preciso. A automedicação, por sua vez, é uma das práticas mais nocivas e deve ser combatida com campanhas de conscientização e fiscalização adequadas.
Não venceremos essa batalha apenas com novos medicamentos. Precisamos investir em prevenção: vacinas, higiene hospitalar, saneamento, controle de infecção e educação em saúde.
O fortalecimento dos laboratórios públicos e o incentivo à pesquisa científica são essenciais para mapear padrões de resistência e desenvolver alternativas terapêuticas. A inovação deve caminhar junto com políticas de acesso e equidade, garantindo que as soluções não fiquem restritas a poucos centros em regiões metropolitanas, onde há mais acesso aos serviços de saúde.
É importante lembrar que a resistência antimicrobiana não reconhece fronteiras — e, por isso, exige uma resposta global coordenada. O Brasil tem condições de ser referência na América Latina, combinando pesquisa científica de ponta, um sistema público de saúde robusto e a tradição de cooperação internacional.
A hora de agir é agora. Preservar a eficácia dos antimicrobianos é preservar a vida. É garantir que cirurgias, tratamentos e partos continuem seguros. É assegurar o direito fundamental à saúde das próximas gerações, pois a resistência antimicrobiana não é uma ameaça distante — é uma realidade que nos convoca à responsabilidade e à ação coletiva.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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