Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Redes sociais

Bebês de mentira, alerta de verdade

Se essa brincadeira começa a mobilizar estruturas públicas, como o Poder Legislativo ou o Judiciário, então alguma coisa está muito errada

Publicado em 31 de Maio de 2025 às 04:00

Públicado em 

31 mai 2025 às 04:00
Eugênio Ricas

Colunista

Eugênio Ricas Eugênio Ricas

eugenioricas@hotmail.com

No momento em que acreditei que nada mais me surpreenderia quando o assunto é rede social, busca frenética por likes e a própria insensatez humana, a nova onda de bebês reborns me mostra o quanto eu estava errado. Esses bonecos hiper-realistas, que imitam com perfeição recém-nascidos, deixaram de ser apenas brinquedos ou objetos de coleção para se transformarem, em muitos casos, em substitutos emocionais, alvos de afeto, cuidados e até de rotinas típicas da maternidade.
Não quero, neste artigo, julgar ou rotular quem quer que seja. Acredito piamente que qualquer pessoa é absolutamente livre para fazer o que quiser, desde que seus atos não interfiram na vida do outro ou infrinjam qualquer regramento social. Assim, se uma pessoa adulta quer lidar com sua solidão, frustrações e traumas cuidando de um boneco como se fosse um bebê real, isso é, na minha visão, um direito legítimo.
A questão, no entanto, tem se mostrado mais complexa do que parece. Em alguns casos recentes, essa fantasia (real ou simulada) tem mobilizado estruturas do Estado, impactando de forma negativa toda a coletividade.
Bebê reborn
Bebê reborn Crédito: Pixabay
Não estou falando aqui das inúmeras fakes news que inundaram as timelines nos últimos tempos. Apenas a título de exemplo, cito um suposto caso em Goiás, onde a Polícia Militar teria sido acionada para atender a um caso de engasgamento de um bebê que, na verdade, era um boneco. Conforme informações não confirmadas, um vizinho teria visto o boneco e acionado a PM que teria ido ao local e constatado que não se trataria de um bebê, mas sim de um boneco (reborn). Como disse, essa notícia não pôde ser confirmada, indicando se tratar de mais uma fake news.
Não se trata de um caso isolado. Há registros de outras fake news semelhantes em várias partes do Brasil: unidades de saúde recebendo falsas emergências, atendentes do Samu sendo acionados por engano, conselhos tutelares investigando supostos casos de abandono, entre outros.
Se, no entanto, as notícias em que a segurança ou a saúde pública mobilizaram esforços e recursos para lidar com os bebês reborns são falsas, já não podemos falar o mesmo do nosso Poder Legislativo. Projetos de lei já foram apresentados para regulamentar, pasmem, algumas situações que envolvem os serviços públicos e esses bebês hiper-realistas.
Apenas a título de exemplo, o PL 2326/2025 proíbe o atendimento a bonecos hiper-realistas em unidades de saúde públicas e privadas, inclusive nas conveniadas ao SUS (Sistema Único de Saúde). O PL 2323/2025 prevê acolhimento psicossocial no SUS de pessoas que desenvolvam vínculos afetivos com os bebês reborns. Já o PL 2320/2025 impõe sanções administrativas a quem utilizar os bonecos para obter benefícios destinados a crianças de colo.
Como se não bastasse, outro caso também chama a atenção e deve movimentar (de forma indevida e desnecessária) o Poder Judiciário. Na Bahia, uma recepcionista ajuizou uma ação trabalhista pleiteando licença-maternidade por ser mãe de uma boneca reborn.
O Estado brasileiro, com todas as limitações orçamentárias e desigualdades, não pode se dar ao luxo de gastar tempo ou dinheiro com assuntos como esse.
Essa situação escancara a existência de um importante dilema de nossa sociedade: a liberdade individual de brincar ou se refugiar em universos simbólicos não pode ultrapassar o limite do bom senso quando os efeitos disso impactam a coletividade.
Resumindo, se adultos querem brincar de boneca, tudo bem. O que cada um faz com seu tempo e com sua maturidade (ou falta dela) é uma decisão individual de cada ser humano. Mas se essa brincadeira começa a mobilizar estruturas públicas, como o Poder Legislativo ou o Judiciário, então alguma coisa está muito errada.
É preciso, mais uma vez, reforçar a importância do combate às fake news e, também mais uma vez, torcer (e votar melhor!) para que nossos representantes no Legislativo voltem sua energia e recursos para o que realmente importa, melhor educação, melhor segurança pública, enfim, melhores serviços e políticas públicas para nossa sociedade.

Eugênio Ricas

Eugênio Ricas Eugênio Ricas

É delegado de Polícia Federal, ex-secretário de Segurança Pública do ES e diretor de Controle Interno da Interpol

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Sem Michelle e com Milei, Flávio oficializa candidatura e promete que Bolsonaro subirá a rampa do Planalto em 2027
Casagrande na convenção do PSB
Casagrande defende fim de cargo vitalício para ministros do STF
Ricardo Ferraço e Casagrande se abraçam na chegada à convenção do PSB-ES (25/07/2026)
Casagrande e Ricardo Ferraço querem negociar com PSD, não com Hartung

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados