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Literatura

Dia Nacional do Livro e o escritor capixaba

Entre o saudosismo e a crítica, autor capixaba reflete sobre a trajetória dos escritores locais e o declínio da cultura do livro em meio à era digital
Francisco Aurelio Ribeiro

Publicado em 

03 nov 2025 às 04:00

Publicado em 03 de Novembro de 2025 às 07:00

No dia 29 de outubro, comemorou-se o dia nacional do livro, data escolhida por marcar a fundação da Biblioteca Nacional do Brasil, em 1810. Em 29 de outubro de 1810, a Real Biblioteca Portuguesa, com cerca de sessenta mil itens, foi instalada no Rio de Janeiro, dando origem à primeira biblioteca do Brasil. Após a Independência, ela permaneceu no Brasil, após pagamento de altíssima indenização a Portugal. A data foi oficializada como o Dia Nacional do Livro pela Lei nº 5.191, de 13 de dezembro de 1966, em plena ditadura militar.
Atualmente, a Biblioteca Nacional é uma das mais importantes da América Latina e é o órgão responsável pela execução da política governamental de captação, de guarda, da preservação e da difusão da produção intelectual do país. Com mais de 200 anos de história, é a mais antiga instituição cultural brasileira. Com sede no Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil, a BN sobrevive, apesar de tudo por que passa o Rio, como guardiã da memória literária e cultural de nosso país.
A leitura ativa ajuda a entender a fundo o que o autor quer transmitir (Imagem: Dean Drobot | Shutterstock)
Leitura:  talvez os amantes do livro e da leitura formem, no futuro, uma confraria, como a dos que apreciam disco em vinil Crédito: Dean Drobot | Shutterstock
Nasci, como a maioria dos brasileiros, numa casa sem livros; no entanto, criei profundo elo afetivo com eles, desde a infância, influenciado por meu avô italiano e por minha mãe, ambos exímios contadores de história, essa arte que forma leitores. Foram eles que me incentivaram à leitura, desde cedo, e meu pai, que me dava livros de presente, na época, raros e caros. Não queria brinquedos, pois os fazia, com chuchus, jilós, sementes e carretéis de linha, que minha mãe descartava, após a costura. Até grandes baterias dos velhos rádios viravam carrinhos e desconhecíamos, nós e eles, os perigos que podiam trazer à saúde e ao meio ambiente. O mundo parecia menos perigoso diante de nossa inocência.
Por uma dessas contingências da vida e por destino, tornei-me professor e escritor capixaba. Publico, há mais de quarenta anos, e tenho mais de setenta livros publicados de diferentes gêneros e modalidades literárias, dentre os quais crônica, crítica/historiografia literária, infantojuvenil, biografias e didáticos. Comecei a publicar na década de 1980, em editoras de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo e, naquela época, uma tiragem de livros para crianças saía com, no mínimo, três mil exemplares, e os livros eram divulgados por todo país. A cada ano, saía uma nova tiragem e meus primeiros livros chegaram a ter sete ou oito edições. Participava de feiras de livros por todo país, do Rio Grande do Sul ao Amapá e, em todos os lugares, encontrava leitores ávidos por conhecer o autor e falar com ele.
Tudo mudou na década seguinte, com o advento da internet e a crise que se seguiu ao governo Collor. Passei a publicar usando os incentivos das leis de fomento à cultura, meus livros deixaram de circular e passei a fazer parte do rol dos “escritores invisíveis”, como tão bem os rotulou Tavares Dias. Atualmente, não sou convidado para participar de eventos literários, de feiras literárias, até na Ufes, onde fui professor, pesquisador e editor, por três décadas. Parece que não tenho mais lugar de fala, neste nosso mundo de afirmações identitárias, embora tenha sido o primeiro estudioso do multiculturalismo, com a publicação, há trinta anos, do “A Literatura do Espírito Santo: uma marginalidade periférica” e de ter sido um dos criadores do PPGL da Ufes, do Neples e da Edufes.
Assim como eu, há muitos escritores capixabas que conseguem, a duras penas, escrever e publicar seus livros, pois há leis de incentivo cultural que funcionam bem, em Vitória, Serra, Vila Velha, Cariacica e Cachoeiro e, anualmente, os editais da Secult, o filão do mercado. No entanto, superado o eterno desafio de escrever e de publicar, há um outro maior: fazer com que este produto, o livro, circule e seja lido. Encontrar um leitor para o seu livro, torná-lo visível, fazer com que ele seja encontrado por alguém que possa se interessar por ele é um obstáculo quase intransponível para o escritor capixaba.
Quando existem prefeituras cujas secretarias de educação adquirem livros de escritor capixaba, e são muito poucas, temos alguma esperança de, pelo menos, nosso livro chegar à escola e de ser lido por algum estudante, se, na escola, houver professor que se interesse por divulgar o escritor local e não somente os já consagrados nacionalmente. Mas, é raro. Além do mais, existe ainda o grande atrativo de crianças e jovens do mundo de hoje pelos eletrônicos e games, uma concorrência desleal com o, para eles, sem graça, livro de literatura. E a desgraça supremacista das redes sociais, que prenderam todo mundo nessa teia de egos inflacionados, de opiniões sobre tudo sem aprofundar nada, de radicalismos extremados, onde cada um quer ser o dono exclusivo da verdade, e em que os ditos “influenciadores digitais” passaram a ser os ídolos e modelos de sucesso da atualidade.
Chegamos ao fim de uma era, a analógica, e pude vivenciar isso, claramente, nestes quarenta anos em que escrevo e publico num suporte, o papel, que, me parece, chegou ao esgotamento, senão total, mas parcial. Talvez, os amantes do livro e da leitura formem, no futuro, uma confraria, como a dos que apreciam disco em vinil; ou desapareçam, como aconteceu com a dos colecionadores de cartão de telefone, uma febre, há poucas décadas, e a dos filatelistas, hoje, praticamente, extintas. Não sei, pois vivemos numa sociedade onde tudo é provisório, passageiro, de duração limitada e finita, como a geração digital que chega ao poder com sua obsessão pelas novidades eletrônicas e nem por isso mais feliz do que a nossa, que nem tínhamos tanto, mas éramos felizes com o pouco que havia.
Desse mundo de felicidade fabricada como o de Virgínia e Viny Jr. ou de Zé Filipe e Ana Castela, quero distância. Prefiro os conflitos eternos de Bentinho e Capitu, os amores impossíveis de Abelardo e Heloísa e, até mesmo, os dilemas existenciais do jovem Törless, recentemente traduzido por Erlon Paschoal, a qualquer um desses, fabricados para ficar na mídia. Enfim, c’est la vie.
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