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Crônica

Digital, sim, mas sem perder a humanidade

A maioria das consultas é marcada, agora, por secretárias virtuais, sem a interferência de humanos; se tiver urgência, esquece, é só a data disponibilizada pelas máquinas, geralmente de quinze a trinta dias à frente, se tiver sorte
Francisco Aurelio Ribeiro

Publicado em 

23 fev 2026 às 03:00

Publicado em 23 de Fevereiro de 2026 às 06:00

Tenho convivido com médicos, consultórios, exames, hospitais, nos últimos meses, como a maioria dos idosos, e vou relatar um pouco da experiência vivida, nem sempre positiva. A maioria das consultas é marcada, agora, por secretárias virtuais, sem a interferência de humanos; se tiver urgência, esquece, é só a data disponibilizada pelas máquinas, geralmente de quinze a trinta dias à frente, se tiver sorte.
Consulta agendada, chega-se ao consultório e espera-se uma hora, no mínimo, pois o doutor sempre atrasa. Ao entrar em seu consultório, ele está, invariavelmente, ao celular e pede para você esperar. Ao atender, pergunta o que você está sentindo, pede alguns exames e o despacha, em poucos minutos, sem tocar em você. Antigamente, ainda mediam a pressão. Hoje, nem isso.
Dias depois, exames prontos, outra dificuldade para remarcar a consulta, volta ao consultório, espera, etc, ele vê os exames por cima, receita algum medicamento, fisioterapia ou nem isso. Desgaste com a idade, disse o meu. E pronto! Tem pressa em atender o próximo paciente, pois a fila é grande. Poucos são os médicos que o recebem na porta, cumprimentam-no pelo nome, eles o têm no computador, e se mostram solidários com o sofrimento do paciente.
Recentemente, passei violento trauma, com a amputação de quatro dedos da mão direita, em um acidente com uma máquina agrícola. Passei cinco dias no hospital, três da rede pública e dois da privada, e dentre as muitas pessoas que me atenderam, as mais humanas foram as auxiliares de enfermagem, moças dedicadas, que recebem salário mínimo e fazem o máximo para ajudar os que sofrem.
Uma me contou, em lágrimas, que perdera o tíquete-alimentação de R$ 350 porque batera o ponto adiantado em cinco minutos e o dinheiro perdido lhe faria falta para comprar o alimento para o filho. Outra me contou que perdeu a filha única de meningite, aos onze anos, e que ainda não superou a dor. E assim, entre lágrimas e sofrimentos, ia-me conformando que minhas dores nada eram diante das que compartilhava com elas, criaturas irmanadas pelo sentimento. Mundo injusto, que paga tanto a alguns e uma miséria a outros que fazem um trabalho tão essencial à comunidade.
Como é comum, nestes tempos digitais, postei, em minhas redes sociais, o que ocorreu comigo, e recebi centenas de mensagens de apoio e de solidariedade, incluindo poemas de amigos virtuais poetas, o que me confortou e aqueceu o coração. Dentre todas as mensagens que recebi de conforto, uma chegou pelo correio, de Recife, datada de 28 de janeiro de 2026, três dias após o acidente.
Era um livro, com uma carta dentro, com os seguintes dizeres: “Soube, por uma publicação do seu filho, do episódio recente. Como escritor, o senhor usa muito as mãos; ainda assim, acredito que a literatura mora também no olhar e na coragem de continuar. Se alguma página deste livro oferecer respiro, presença ou um fio de esperança, já terá cumprido o que desejava. Receba meu carinho, minha admiração e este abraço em forma de livro. E assinava “Fred Melo ou apenas na adolescência Jackson”.
Uniforme de enfermagem
Uniforme de enfermagem Crédito: Shutterstock
Confesso que fiquei emocionado, pois não me lembrava de nenhum Jackson ou Fred, colega de adolescência de meu filho, mas ele se lembrou de mim e de meu amor pelos livros. O que me mandou, seu primeiro livro, chama-se “Transformação Digital Humana. Onde a tecnologia encontra a alma”, e o nome completo do autor é José Frederico Mendes de Castro Melo, Fred Melo, publicado em 2025.
O livro tem como epígrafe “O futuro não será o das máquinas que aprendem mais rápido, mas o das pessoas que reaprendem a sentir”, frase do autor, que norteia a construção do livro, em dez capítulos. Recomendo a leitura a todos que leem o mundo, criticamente, nestes tempos de Inteligência Artificial, em que a sedução pela máquina arrasta a todos para uma perda do humano que somos. Obrigado, Fred, pelo carinho e pela reflexão estabelecida em seu livro. Estamos juntos nessa caminhada.
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