Tenho convivido com médicos, consultórios, exames, hospitais, nos últimos meses, como a maioria dos idosos, e vou relatar um pouco da experiência vivida, nem sempre positiva. A maioria das consultas é marcada, agora, por secretárias virtuais, sem a interferência de humanos; se tiver urgência, esquece, é só a data disponibilizada pelas máquinas, geralmente de quinze a trinta dias à frente, se tiver sorte.
Consulta agendada, chega-se ao consultório e espera-se uma hora, no mínimo, pois o doutor sempre atrasa. Ao entrar em seu consultório, ele está, invariavelmente, ao celular e pede para você esperar. Ao atender, pergunta o que você está sentindo, pede alguns exames e o despacha, em poucos minutos, sem tocar em você. Antigamente, ainda mediam a pressão. Hoje, nem isso.
Dias depois, exames prontos, outra dificuldade para remarcar a consulta, volta ao consultório, espera, etc, ele vê os exames por cima, receita algum medicamento, fisioterapia ou nem isso. Desgaste com a idade, disse o meu. E pronto! Tem pressa em atender o próximo paciente, pois a fila é grande. Poucos são os médicos que o recebem na porta, cumprimentam-no pelo nome, eles o têm no computador, e se mostram solidários com o sofrimento do paciente.
Recentemente, passei violento trauma, com a amputação de quatro dedos da mão direita, em um acidente com uma máquina agrícola. Passei cinco dias no hospital, três da rede pública e dois da privada, e dentre as muitas pessoas que me atenderam, as mais humanas foram as auxiliares de enfermagem, moças dedicadas, que recebem salário mínimo e fazem o máximo para ajudar os que sofrem.
Uma me contou, em lágrimas, que perdera o tíquete-alimentação de R$ 350 porque batera o ponto adiantado em cinco minutos e o dinheiro perdido lhe faria falta para comprar o alimento para o filho. Outra me contou que perdeu a filha única de meningite, aos onze anos, e que ainda não superou a dor. E assim, entre lágrimas e sofrimentos, ia-me conformando que minhas dores nada eram diante das que compartilhava com elas, criaturas irmanadas pelo sentimento. Mundo injusto, que paga tanto a alguns e uma miséria a outros que fazem um trabalho tão essencial à comunidade.
Como é comum, nestes tempos digitais, postei, em minhas redes sociais, o que ocorreu comigo, e recebi centenas de mensagens de apoio e de solidariedade, incluindo poemas de amigos virtuais poetas, o que me confortou e aqueceu o coração. Dentre todas as mensagens que recebi de conforto, uma chegou pelo correio, de Recife, datada de 28 de janeiro de 2026, três dias após o acidente.
Era um livro, com uma carta dentro, com os seguintes dizeres: “Soube, por uma publicação do seu filho, do episódio recente. Como escritor, o senhor usa muito as mãos; ainda assim, acredito que a literatura mora também no olhar e na coragem de continuar. Se alguma página deste livro oferecer respiro, presença ou um fio de esperança, já terá cumprido o que desejava. Receba meu carinho, minha admiração e este abraço em forma de livro. E assinava “Fred Melo ou apenas na adolescência Jackson”.
Confesso que fiquei emocionado, pois não me lembrava de nenhum Jackson ou Fred, colega de adolescência de meu filho, mas ele se lembrou de mim e de meu amor pelos livros. O que me mandou, seu primeiro livro, chama-se “Transformação Digital Humana. Onde a tecnologia encontra a alma”, e o nome completo do autor é José Frederico Mendes de Castro Melo, Fred Melo, publicado em 2025.
O livro tem como epígrafe “O futuro não será o das máquinas que aprendem mais rápido, mas o das pessoas que reaprendem a sentir”, frase do autor, que norteia a construção do livro, em dez capítulos. Recomendo a leitura a todos que leem o mundo, criticamente, nestes tempos de Inteligência Artificial, em que a sedução pela máquina arrasta a todos para uma perda do humano que somos. Obrigado, Fred, pelo carinho e pela reflexão estabelecida em seu livro. Estamos juntos nessa caminhada.