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Literatura

Há motivos para comemorar o Dia do Escritor Capixaba?

O que observo, no dia a dia, é que a maioria dos escritores que conheço também não lê, muito menos a obra de um colega

Publicado em 17 de Junho de 2024 às 01:30

Públicado em 

17 jun 2024 às 01:30
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

Semana passada, 11 de junho, comemorou-se o Dia do Escritor Capixaba, lei estadual de 2002, revogada em 2020, mas que manteve a data no calendário oficial de efemérides do Estado. Não sei se há muitos motivos para se comemorar, e posso dizer que, da criação dessa lei para cá, o que mudou no cenário literário capixaba é que há muito mais gente escrevendo, e, por extensão, escritores, do que lendo.
A literatura, entre nós, sempre foi uma arte cultivada por uma minoria, já que a maioria da população brasileira mal tem acesso aos livros e à leitura em sua formação escolar. No entanto, são os escritores que, em verso e prosa, representam e constroem a identidade cultural do país, fazendo da palavra a matéria-prima de sua arte.
Por meio de pensamentos, sentimentos e opiniões, provocam nos leitores diferentes emoções, fazendo-os rir, chorar, recordar e refletir. Para isso, os livros precisam ser lidos, e esse é o maior desafio para quem escreve. Já se disse que todos deveriam plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Aparentemente, realizar essas três metas é fácil; difícil é cuidar da árvore para que ela se desenvolva, educar o filho para ser um cidadão e conseguir um leitor para seu livro.
Nos grupo de WhatsApp, nesse dia, proliferam frases do tipo: “Ser escritor é ser o artista que interpreta a vida através da arte” ou “Escrever para alguém é sempre a necessidade tão humana de aproximar a mão que escreve dos olhos de quem lê”; ou, ainda, esta famosa do Borges: “O livro é a grande memória dos séculos; se os livros desaparecessem, desaparecerá a história e, seguramente, o homem”.
É claro que as frases de autores famosos ou anônimos serão acompanhadas de belas imagens, pois o que seria do mundo, hoje, se as letras não fossem acompanhadas de signos visuais, icônicos, de tanta sugestividade e beleza? No entanto, o que observo, no dia a dia, é que a maioria dos escritores que conheço também não lê, muito menos a obra de um colega.
Apesar de ser escritor há 40 anos e de ter 70 livros publicados, de diferentes gêneros e modalidades, me sinto mais leitor do que escritor. A escrita é, para mim, um exercício cotidiano e profissional, mas nada me dá mais prazer do que ler um bom livro, bem escrito e que me leve a viajar pelo imaginário e a refletir sobre o ser humano e o mundo em que vivemos, com todas as suas contradições.
Livros, biblioteca
Onde estão os leitores? Crédito: Pixabay
Escritor que não lê não deveria ser escritor; por isso, duvido da qualidade dos best-sellers de jovens que fazem sucesso na internet e, depois, lançam livros, que são apenas subprodutos midiáticos deste mundo em que vivemos. E os que escrevem para si mesmos, apenas para satisfação de egos superinflados de vaidade e necessidade de afirmação?
Ah, meus amigos, há de tudo neste nosso mundo tão humano de escritor, mas concluo este texto com duas reflexões, uma de Sartre: “É o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito. Só existe arte por e para outrem”, e outra de José Arrabal, escritor capixaba: “Creio que o escritor é essencialmente um leitor. Sempre um leitor às voltas com a arte da vida transfigurada por palavras”.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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