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Sociedade

Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista

Quando um jogador de futebol é chamado de “macaco” num estádio, por uma torcida adversária, ele não está sendo comparado a esse animal por sua agilidade, destreza ou qualquer outra característica positiva. O que se quer é rebaixá-lo

Publicado em 25 de Maio de 2023 às 15:39

Públicado em 

25 mai 2023 às 15:39
Francisco Aurelio Ribeiro

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Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

Senador Magno Malta comentou o caso de racismo contra o jogador Vinícius Jr.
Senador Magno Malta comentou o caso de racismo contra o jogador Vinícius Jr. Crédito: Reprodução/TV Senado
Com relação aos deploráveis episódios dos últimos dias envolvendo os ataques racistas ao jogador de futebol Vinicius Jr. nos estádios espanhóis e à fala infeliz de um representante do Espírito Santo no Senado, vamos fazer algumas considerações, tomando por base o excelente “Caderno orientador para a Educação das Relações Étnico-raciais no Espírito Santo”, recentemente lançado pela Secretaria de Estado da Educação, para uso de professores e de toda a comunidade escolar.
Em primeiro lugar, o caderno traz os seguintes conceitos para ”racismo” e “preconceito racial”, baseando-se no professor Sílvio Luiz de Almeida, retirados de sua obra “Racismo Estrutural”, hoje indispensável para entendermos a nossa sociedade. Segundo ele, “racismo é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios para indivíduos, a depender do grupo racial ao qual pertencem” e “preconceito racial é o juízo baseado em estereótipos acerca de indivíduos que pertencem a um determinado grupo racializado, que pode ou não resultar em práticas discriminatórias”.
Quando um jogador de futebol é chamado de “macaco” num estádio, por uma torcida adversária, ele não está sendo comparado a esse animal por sua agilidade, destreza ou qualquer outra característica positiva. O que se quer é rebaixá-lo, diminuí-lo e considerá-lo inferior por sua cor.
E, respondendo ao senador, há muitas organizações e ONGs protetoras dos animais, que defendem os macacos e outros bichos, numa tentativa de preservá-los de outros animais muito mais perigosos que eles, nós, os humanos, cruéis e predadores por natureza.
Na Espanha mesmo, onde esses fatos lamentáveis ocorrem com muita frequência, e há muito tempo, disseminou-se a prática execrável das touradas, em que touros são criados para serem mortos, cruelmente, num espetáculo sanguinário e dantesco, para deleite da plateia. Além do mais, não eram os macacos que estavam sendo agredidos, quando a turba ululava “mono”, em cada jogada magistral do craque brasileiro, era o jogador.
Em sua fala infeliz, o senador disse: “Você só pode matar uma coisa com o próprio veneno de alguma coisa. Então, o seguinte: cadê os defensores da causa animal que não defende (sic) o macaco? Macaco tá exposto (sic). Veja quanta hipocrisia. E o macaco é inteligente, é bem pertinho do homem, a única diferença é o rabo, Ágil, valente, alegre, tudo o que você pode imaginar, ele tem”.
Nem tudo, senador, se mata com o próprio veneno. Racismo, por exemplo, se combate com educação antirracista. Como bem disse Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.
E inteligência não é atributo dos macacos. Embora pertençamos à mesma ordem de animais, a dos primatas, mamíferos, onde também se localizam macacos, símios, lêmures, lóris e tarsos, os humanos são, ou deveriam ser, os únicos animais que pensam.
Portanto, não é somente o rabo que nos diferencia de nossos primos-irmãos. É, ou deveria ser, a inteligência. Por último, para fechar sua pérola de elocução, o senador sugeriu: “Eu, se fosse um jogador negro, eu ia entrar em campo com uma leitoinha branca nos braços e ainda dava um beijinho nela. Falava assim: 'Ó como não tenho nada contra branco. E eu ainda como se tiver vontade'”. Sem comentários.
Concluo, citando o caderno: o racismo está presente na nossa sociedade, é histórico e é estrutural. Combatê-lo exige um esforço conjunto de todos nós, cidadãos brasileiros. Como disse Angela Davis, “em uma sociedade racista não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.
Nesse sentido, educar para as relações étnico-raciais é fulcral para o desenvolvimento de uma educação antirracista e uma sociedade justa, equânime e democrática. Para isso, é preciso punir os racistas, estejam eles nos estádios, nos parlamentos, nas igrejas, em qualquer lugar onde destilem seu ódio, sua ignorância e seu preconceito.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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