Hoje, primeiro de abril, é o Dia da Mentira e, nesta data, comemoram-se os 55 anos da ditadura militar instaurada no Brasil, que durou por longos e tenebrosos 21 anos. Convencionalmente, a data é tida como 31 de março, dia em que as tropas começaram a se deslocar dos quartéis para tomar o poder do presidente João Goulart, democraticamente eleito. O presidente atual determinou que a solenidade ficasse restrita aos quartéis, a critério dos comandantes. Ainda bem. Seria insuportável ter de vestir verde e amarelo e ir para as praças ouvir discursos e louvações infundados.
Em abril de 1964, tinha nove anos e vi meu pai apreensivo, pois ele tinha 34 anos e podia ser convocado, caso houvesse guerra civil. Ele só viveu mais dois anos e não o suficiente para ver o que aconteceu em 1968, quando o AI foi decretado, acabando com as eleições e todas as liberdades democráticas. Todas as noites, ouvíamos, pelo rádio, as longas listas de políticos, civis e militares cassados, perseguidos e presos. Passeatas de estudantes e de intelectuais contra a ditadura serviram apenas para tornar mais aguda a repressão a todos os que eram contra o sistema ditatorial implantado à força no poder. Claro, houve apoio de civis e de parte das igrejas, sem o qual o regime não teria durado o tempo que durou.
Retomo essas tristes lembranças, pois estamos passando por um período de revisionismo histórico, negando-se a ditadura militar de 1964 a 1985. Dia desses, em reunião de família, membros bolsonaristas exaltados proclamavam, em alto e bom som, que não houve ditadura militar, que aquele foi um tempo de bonança, segurança e prosperidade. Não é verdade. Isso só ocorreu para os que aderiram àquele sistema e eram apaniguados por ele. Tornei-me professor nos anos 1970, sem nenhum direito trabalhista e sujeito às vontades e desejos de quem me concedia o “direito de ensinar”.
Vivíamos nas mãos do poder, pois a censura à livre expressão era absoluta e agia de todas as maneiras. Somente com a democratização do país, a partir de 1980, concursos públicos aos serviços públicos foram abertos e vagas disputadas, democraticamente, como deve ser. Lembro-me de, ao terminar minha primeira pós-graduação, em 1979, ter buscado informação para ingresso ao magistério na Ufes. Stélio Dias, secretário de Educação e professor no Curso de Pedagogia, depois, deputado federal, me disse, realisticamente: “Você tem amigos lá?”. Respondi-lhe: “Não. Não conheço ninguém, pois não estudei aqui”. “Então, desista. Emprego na Ufes é uma ‘Ação entre Amigos’”. Quem testemunhou esse diálogo foi a professora Ivanete Dalmácio, de Guaçuí, hoje nonagenária. Com a volta dos militares ao poder, agora democraticamente, espero que meus netos nunca passem pelos momentos que passei, naqueles “anos de chumbo”.