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103 anos da AEL

Para que serve uma Academia de Letras?

Acreditamos, como o mestre Antônio Cândido, que a “literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna compreensivos para com a natureza, a sociedade e o semelhante”

Publicado em 09 de Setembro de 2024 às 02:00

Públicado em 

09 set 2024 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

A Academia Espírito-santense de Letras foi fundada em 4 de setembro de 1921 — idealizada por três jovens intelectuais: o professor Elpídio Pimentel, o jornalista Garcia de Rezende e o advogado Alarico de Freitas, 25 anos — depois de sua congênere-mater, a Academia Brasileira de Letras, fundada por Machado de Assis e seus pares, em 1896.
Inicialmente, ela foi constituída por vinte membros, entre os que atuavam em Vitória e na capital federal, o Rio de Janeiro. A primeira década foi a de constituição da entidade, com a elaboração de estatutos, regimento e a posse de seus primeiros acadêmicos. Com a chegada dos revoltosos de 1930, a maioria dos seus membros se dispersou, pois perderam cargos e funções que ocupavam na República Velha, dentre os quais, o próprio governador, Aristeu Borges de Aguiar, que se exilou em Portugal.
A AEL entra em um período de recessão, só voltando a funcionar, a partir de 1938, com a intercessão de Archimimo Matos, meu antecessor na cadeira 6, a eleição de novos membros e a ampliação do número de cadeiras para 30 e, posteriormente, 40.
A partir da inauguração do edifício do Ruralbank, na década de 1940, por intermédio de seu presidente, Mário Freire, filho do Prof. Aristides Freire, um dos fundadores, a AEL passou a contar com uma sede, no terceiro andar do prédio. Ali os acadêmicos faziam suas reuniões, davam palestras e cursos, posses a novos acadêmicos e inauguram a biblioteca com o acervo doado pelo acadêmico Saul de Navarro, após a sua morte, em 1945.
Isso durou até a década de 1960, quando o prédio veio abaixo, na década de 1960, para a construção do atual edifício do Banestes. Infelizmente, a maior parte do acervo bibliográfico e documental da AEL se perdeu, incluindo os quadros de Patronos & Acadêmicos e a maior parte dos livros de Saul de Navarro. Daí para frente, as reuniões passaram a ocorrer no palacete do Prof. Kozciusko Leão, que o doou, juntamente com sua esposa, Da. Laurinha, para a AEL, após a sua morte, em 1979.
Nas décadas de 1980 e 1990, a AEL passou a se dedicar mais à preservação da memória literária capixaba, com a publicação do primeiro livro de Patronos & Acadêmicos, em 1985, organizado por Elmo Elton, a publicação de dois volumes da antologia Torta Capixaba com a produção literária dos acadêmicos e a primeira Revista da AEL, feita no seu 70º aniversário, em 1991.
A partir de 1998, essa revista passou a ser anual e, atualmente, encontra-se em seu volume 30. A partir de 2007, a AEL passou a efetuar convênio com a Secretaria de Cultura da PMV, para a publicação de livros das Col. Roberto Almada, Escritos de Vitória e José Costa. Nestes 17 anos, cerca de cem livros já foram publicados e distribuídos aos leitores capixabas, sempre lançados em dezembro com grande sucesso de público.
Centro de Vitória
O prédio da Academia Espírito-Santense de Letras Crédito: Divulgação
Muitos perguntam para que serve uma Academia de Letras, sobretudo em um país em que se lê tão pouco? E a primeira resposta é esta: para divulgar a leitura e a literatura como essenciais ao ser humano e a uma sociedade letrada. Em segundo lugar, para preservar a memória literária e cultural de nosso Estado, como reforço à fixação de nossa identidade.
Para isso, desenvolvemos projetos como a Academia vai à escola e a Escola vai à Academia. Acreditamos, como o mestre Antônio Cândido, que a “literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna compreensivos para com a natureza, a sociedade e o semelhante”. Parabéns à AEL pelos seus 103 anos e à nossa presidente e atual diretoria que a conduzem com segurança, nestes tempos tão conturbados e perigosos à democracia.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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