Então, o ex-príncipe Andrew, da Inglaterra, foi em cana... Não sei mais que o leitor sobre os motivos que o levaram à prisão, mas não é disso que quero tratar. O importante é sublinhar como as coisas acontecem na Inglaterra e comparar com a França.
Quando as notícias sobre o envolvimento dele no caso Epstein começaram a surgir, ninguém teve a ideia de censurar a imprensa e abafar o caso. Pelo contrário, quando uma crise de imagem parecia inevitável, o Rei Charles retirou do próprio irmão todos os títulos de nobreza e simbolicamente o excluiu da família real, embora não pudesse fazer nada quanto ao parentesco consanguíneo em si.
Bem, algum policial achou que podia investigar o irmão do Rei, investigou e mandou para algum juiz, que achou que podia e devia mandar prender o irmão do Rei e mandou. Por incrível que pareça, a ordem foi cumprida. O Rei Charles (caso o leitor não conheça, é aquele que já foi casado com a Princesa Diana) soltou uma nota oficial: “Não conhecemos nenhum Andrew”. Parece que, na Inglaterra, ninguém, mas ninguém mesmo, está acima da lei. E olha que eles quase não têm leis, porque o Direito lá segue o sistema da Common Law...
O interessante é que, apesar dos incessantes e crescentes sinais de que iria ver o sol nascer quadrado, nunca ocorreu ao ex-Príncipe Andrew tirar umas férias na França, aonde os ingleses podem ir em uma viagem de trem de poucos minutos pelo Eurotunnel, ou mesmo em um pequeno barco particular. Ou nadando, se tiver bom preparo físico.
Dizem que lá as coisas seriam inteiramente diferentes. O ex-presidente Sarkozy até pegou uma cana leve por corrupção, mas os membros da realeza, mesmo que de outro país, são intocáveis, segundo eu soube. Na verdade, um policial francês me disse que há uma espécie de “regra” não escrita proibindo investigar todo o círculo social das dinastias Merovíngia, Carolíngia, Capetiana, Valois, Bourbon e Bonaparte. Não se podem nem sequer conferir os impostos do amigo do amigo.
Por isso, a polícia francesa gasta o tempo todo dela correndo atrás de pequenos ladrões e traficantes. Os mais corajosos enfrentam o crime organizado de Marselha, mas não se metem com a realeza. No máximo, um barão empobrecido.
Pois é, leitor. Na França há mais vacas sagradas que na Índia. Ou, como disse algum desconhecido, “L'État, c'est moi”. Depois reclamam da própria decadência e continuam explorando suas “ex-colônias” africanas para manter as aparências.