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Segurança pública

Balas perdidas, física, matemática: quais as chances de alguém ser atingido?

Na internet, fala-se de um fuzil russo prometendo um tiro com precisão a até 7km, o que, inclusive, dificilmente um ser humano conseguiria aproveitar completamente

Publicado em 02 de Julho de 2023 às 00:10

Públicado em 

02 jul 2023 às 00:10
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Tiros na região de Gurigica atingiram prédios em Bento Ferreira
Tiros na região de Gurigica atingiram prédios em Bento Ferreira Crédito: Reprodução
Essa coluna semanal precisa ser entregue com antecedência, então só neste domingo (2) começaremos a comentar a tragédia provocada por uma bala perdida que atingiu um idoso internado para tratamento médico. Apenas começaremos, porque esse fato provoca muitas reflexões e polêmicas. Vamos começar por uma pergunta que muitos devem estar se fazendo: qual é a probabilidade de alguém ser atingido a grande distância de um tiroteio?
Tiroteios e balas perdidas naquela região não são fatos isolados. De vez em quando um projétil é encontrado em imóveis por ali. O alcance e também a precisão dependem, obviamente, da arma e da munição, mas também de muitos outros fatores, como o ângulo do disparo, vento etc.
Na internet, fala-se de um fuzil russo prometendo um tiro com precisão a até 7km, o que, inclusive, dificilmente um ser humano conseguiria aproveitar completamente. Contudo, a quase totalidade das armas desse tipo no Brasil oferece a possibilidade de mirar a não mais que uns 400m, mas o alcance máximo fica em torno de uns 4km. Já os revolveres e as pistolas dificilmente vão atingir alguém a mais de 100m.
Acontece que o projétil, no final do seu percurso, já não tem capacidade de ferir. Os fabricantes divulgam um outro dado: o alcance útil, que geralmente fica em torno de 600m. A essa distância eles não garantem que mesmo um excelente atirador acerte o alvo, mas, se isso acontecer por sorte, a letalidade é mantida. Só que essa informação não resolve o problema, pois ainda trata de um uso intencional, geralmente contra tropas, não contra indivíduos. Ela é apenas um ponto de partida.
A partir de 600m, a letalidade não apenas diminui, mas vai ficando cada vez mais difícil de prever. Com condições ideais, pode chegar a 1,5km, há quem fale até em 3km e não existe uma informação certa ou errada: se todos os astros confluírem, se houver o que os norte-americanos chamam de “tempestade perfeita”, você pode ser tão azarado como o filósofo e dramaturgo grego Ésquilo, que morreu vítima de uma tartaruga que uma águia estava carregando e deixou escapar.
Todavia, o fator que mais reduz o risco à medida em que aumenta a distância é a dispersão. Se alguém está ao lado do alvo, é grande a possibilidade de ele ser atingido quando o criminoso erra o tiro. A cada metro mais longe, o azar precisa crescer muito, pois, como aprendemos no ensino médio, o diâmetro = 2π x raio.
Tá, vamos deixar a matemática de lado e apenas concluir: é irrisória a probabilidade de que um projétil venha exatamente na sua direção, se você está a umas poucas centenas de metros do criminoso. Quem realmente está no risco são as pessoas que moram nas comunidades carentes onde os tiroteios ocorrem, não a turma do asfalto, mas isso não é  motivo para nos preocuparmos menos.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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