O noticiário dos últimos dias foi tomado pelo assassinato de Dante Brito Michelini e pela revisitação ao caso Araceli, ocorrido há mais de meio século. Como sempre, chego intencionalmente atrasado ao debate para chamar a atenção sobre um ponto pouco explorado: a diferença na rapidez e qualidade das duas investigações.
O que permitiu tantas reviravoltas radicais no julgamento de Dantinho foram as inconsistências na investigação, provas de baixa confiabilidade e cujo conjunto era pouco conclusivo. Mesmo em se tratando de um caso que causou comoção nacional, o resultado apresentado à sociedade era totalmente insatisfatório, seja para quem lutasse pela sua condenação, seja para a defesa.
Desta vez, não: em poucos dias apareceu o culpado confesso e até a cabeça da vítima. Tenho lá minhas dúvidas se foi empregado apenas o tirocínio de policiais experientes e trabalho braçal, mas não vai aqui nenhuma crítica: a polícia não pode, mesmo, falar muito sobre os seus métodos investigativos.
Sempre foi muito popular a teoria de influência da abastada família do suspeito, o que pode muito bem ter realmente acontecido, mas certamente não foi um fato isolado.
Para começo de conversa, a Polícia Civil que temos hoje foi criação da Constituição de 1988. A instituição atual simplesmente não existia na época de Araceli. O ingresso na carreira não era por concursos públicos com milhares de candidatos, com nível de escolaridade cada vez maior, mesmo que não seja exigência legal; os salários eram irrisórios, não havia nem telefone em algumas delegacias, faltavam até mesmo viaturas para realizar diligências e a investigação pericial era uma sombra do que temos hoje.
Não se trata apenas da evolução tecnológica que se poderia esperar ao longo das décadas ou mesmo da reorganização institucional que ocorreu com a Constituição de 1988. Por exemplo, mais ou menos nessa época, o delegado de Cachoeiro da minha infância, o Sargento Francelino, era muito amado pela população, mas pertencia a outra instituição, a Polícia Militar. Mantinha a cidade praticamente livre de quaisquer crimes, mas isso vinha de sua pessoa, de seu caráter individual, e de seus subordinados, uma questão de sorte dos cachoeirenses, não uma garantia institucional.
Nada de treinamentos, equipamentos e profissionalismo. Aliás, apesar do avanço jurídico imposto pela Constituição, o esforço de profissionalização e estruturação das polícias capixabas só começou em 2002. Foram 12 anos de completo descaso dos governantes e até salários, mesmo baixos, atrasados.
Mesmo a possibilidade de interferência política e econômica se tornou muito menor atualmente, seja porque os policiais alcançam seus cargos por concursos extremamente concorridos, não por indicação política, seja porque salários mais dignos e pontualmente pagos deixaram de ser um terreno fértil para a corrupção. É, o mundo está muito mudado e gente que nunca morreu agora está morrendo...