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Segurança pública

Deixar o policial aparente ao cidadão não reduz efetivamente  atos ilegais

Para alcançar bons resultados na segurança pública sem estourar o orçamento é preciso estudar os processos decisórios dos criminosos em atuação ou potenciais

Publicado em 24 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

24 mai 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Policiais militares estiveram em três pontos pela avenida Leitão da Silva neste sábado (15)
Policiais militares na Avenida Leitão da Silva Crédito: Giordany Bozzato
Artigo escrito com Robson Antonio Grassi e Jairo de Carvalho Guimarães Junior*
Um dos maiores problemas na gestão da segurança pública é a profunda diferença entre o risco efetivo e a percepção do risco pela população, e, consequentemente, entre aquelas medidas que realmente contribuem para reduzir a violência e aquelas que apenas transmitem – ou se supõe que transmitam – uma sensação de segurança.
O cidadão, naturalmente, sente mais tranquilidade quando pode visualizar um policial, ainda que este possa estar com sua atenção focada em outro ponto. Se eu posso ver, também posso ser visto; se eu gritar, serei socorrido. Isto deveria bastar para que o ladrão pense duas vezes antes de se aproximar de mim. É, obviamente, impossível manter alguém vigiando cada esquina, 24 horas por dia; mesmo o patrulhamento esporádico consome uma enorme quantidade de efetivo, implicando muitas despesas.
Nada obstante, a população clama incessantemente pelo aumento do número de policiais fardados e tão ostensivos quanto possível. É, portanto, enorme a tentação de simplesmente atender a esse reclamo.
Ocorre que dois estudos feitos em Kansas City e em Minneapolis demonstraram que a população sequer notou o fato de haver sido dobrado o policiamento ostensivo em sua região, como, aliás, tampouco se deu conta quando o patrulhamento foi suspenso. Aparentemente, a sensação de segurança desaparece pouco depois que a viatura passa, de maneira que essa demanda seria insaciável, seja por meio da contratação de mais policiais, seja distribuindo-os da maneira mais visível.
Por outro lado, deixar o policial mais aparente para o cidadão não necessariamente será a melhor estratégia para efetivamente reduzir o número de atos ilegais praticados. Uma parte grande, mas nunca medida, desse esforço de prevenir os crimes apenas provoca a sua migração para outro horário ou local. Outro problema é que alguns tipos de violência são mais sensíveis ao patrulhamento preventivo, outros nem tanto, como a violência doméstica ou a corrupção, por exemplo.
Na verdade, estudos da Economia Comportamental mostraram que as condutas delituosas podem ser influenciadas por elementos não estritamente racionais denominados nudges, tais como maior cobertura jornalística da punição de outros infratores ou mesmo campanhas publicitárias voltadas não à população em geral, como é mais frequente, mas diretamente aos próprios delinquentes.
Como o ser humano não é puramente racional o tempo todo, e muito menos os criminosos, as estratégias baseadas em modelos abstratos, sem base empírica, tendem a ser apenas senso comum de muito custo e pouco efeito prático. Para alcançar bons resultados na segurança pública sem estourar o orçamento é preciso estudar os processos decisórios dos criminosos em atuação ou potenciais, bem como medir confiavelmente os resultados concretos das políticas adotadas.
*Robson Antonio Grassi é professor associado do departamento e do programa de pós-graduação em Economia da Ufes
*Jairo de Carvalho Guimarães Junior é mestrando em Economia na Ufes

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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