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Segurança pública

Laboratório de crack em presídio: não se deve aplaudir a degradação das cadeias

Esse é o resultado quando não se compreende que o sistema carcerário deve ser administrado com o mesmo cuidado que a PM e a PC, por exemplo, ou mesmo o sistema educacional e o SUS

Publicado em 09 de Março de 2025 às 03:30

Públicado em 

09 mar 2025 às 03:30
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Aí a gente se depara com a notícia de que um laboratório produzia crack dentro de um presídio em Pernambuco.  O caso tem tudo de tragédia e comédia, mas seria um erro focar os aspectos escabrosos e inusitados. Ainda que uma situação tão gritante não apareça todo dia, muitos estados brasileiros flertam com esse tipo de coisa. Felizmente não o Espírito Santo.
Vamos imaginar a cena. Por menor que seja, uma instalação dessa não dá para malocar embaixo do cobertor. E outras coisas impossíveis de disfarçar: odores, ruídos, movimentação de pessoas. Por outro lado, se já deveria ser difícil entrar com drogas para consumo dos presos, imagine levar matéria-prima e produtos prontos para cima e para baixo.
É difícil que alguém, trabalhando naquele presídio cotidianamente, pudesse ignorar o que se passava lá dentro. Se não participava do esquema, no mínimo teria provavelmente sido omisso. Na verdade, é preciso ir mais longe: as unidades prisionais não ficam “soltas” no mundo, elas devem ser supervisionadas o tempo inteiro e inspecionadas periodicamente.
E vamos dar um passo adiante: para a “empresa” funcionar, era necessário ter certeza de que nenhum funcionário cumpridor de seus deveres fosse lotado naquela cadeia. Enfim: parece que prenderam o diretor do presídio, mas é preciso conferir se ele não era acobertado por alguém superior.
Mas vamos sair do factual, do caso específico. Esse é o resultado quando não se compreende que o sistema carcerário deve ser administrado com o mesmo cuidado que a PM e a PC, por exemplo, ou mesmo o sistema educacional e o SUS. Se você apenas joga malfeitores lá dentro e não toma conta, não controla o tempo inteiro, só faz é criar um galpão logístico onde pode acontecer de tudo e, claro, é como uma fossa séptica esburrando seu conteúdo pelas bordas e o vazando pelas paredes, ou contaminando tudo.
Tem sempre a tropa que aplaude a degradação das cadeias brasileiras, feliz porque criminosos estão sofrendo calor, superlotação e todo tipo de desconforto. Quanto pior, melhor. Só esquecem que eles não ficam realmente neutralizados pelo simples fato de serem formalmente mantidos confinados em determinado espaço. O pessoal aplaude, mas depois fica revoltado quando a coisa explode e espalha m* para todo lado.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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