O Governo Trump está agindo como se o Brasil fosse o quintal dos Estados Unidos. Exibe, sem pudor, o seu propósito de interferir em questões internas brasileiras, cria punições, faz ameaças e tenta se justificar com base em narrativas equivocadas.
E ainda, como acaba de fazer o vice-secretário de Estado Cristopher Landau – número 2 da Secretaria de Estado, que equivale ao nosso Itamaraty – se sente no direito de inventar a falsa versão de que seria um ministro do STF quem destrói a relação entre os dois países. Quem está destruindo essas relações, sabemos todos nós, é o próprio Trump.
Trump, desde o início do seu segundo mandato como presidente norte-americano, não esconde a desimportância que, para ele, o Brasil tem. Logo após a sua posse, em 20 de janeiro, em entrevista na Casa Branca, Trump afirmou com todas as letras que não precisava do Brasil e nem da América Latina. “Eles precisam de nós; nós não precisamos deles; todos precisam de nós”, disse ao responder à pergunta da repórter Raquel Krähenbül sobre como via a relação com a América Latina e o Brasil.
Após fazer ameaças, Trump anunciou, em 9 de julho, unilateralmente, a tarifa de 50% para os produtos exportados do Brasil para os Estados Unidos e se justificou com base em distorcidas informações políticas (como a que diz que o ex-presidente Jair Bolsonaro estaria sofrendo uma “caça às bruxas”) e comerciais (ao afirmar que os Estados Unidos estariam em desvantagem na balança comercial com o Brasil).
Ninguém desconhece que Bolsonaro está sendo processado no Judiciário – que, como ocorre em qualquer democracia, é um poder independente –, por envolvimento direto na tentativa de golpe de Estado no curso de um devido processo legal, e que, ao contrário do que afirmou Trump, os Estados Unidos são superavitários e não deficitários nas suas relações comerciais com o Brasil há, pelo menos, quinze anos.
Da mesma forma unilateral que anunciou a sobretaxa de 50%, Trump, em 30 de julho – dois dias antes da vigência do tarifaço –, decidiu que quase 700 produtos brasileiros estarão fora da sobretaxa, pelo menos por enquanto. Ou seja, sem qualquer negociação, o presidente norte-americano aumentou e reduziu a taxa sobre produtos, a seu bel prazer, brincando com coisa séria, gerando incertezas no mercado e colocando em risco empresas e empregos. Fez o mesmo com várias outras nações. Respeito com países, empresas e pessoas? Nenhum!
Ficou clara, desde o início, a intenção de Trump de interferir em assuntos internos do Brasil, certamente influenciado por Eduardo Bolsonaro, que se autoexilou nos Estados Unidos com o propósito explícito de obter apoio internacional para evitar a prisão do seu pai.
O próprio Eduardo nunca escondeu esse propósito como declarou em entrevista à jornalista Bela Megale no dia 6, quando afirmou que continuará a atuar nos EUA pelo aumento das sanções contra o Brasil e só retornará ao Brasil se conseguir provocar a saída de Alexandre Moraes do STF.
A última “façanha” do Governo Trump foi o cancelamento da reunião virtual que estava marcada entre o ministro da Fazenda Fernando Haddad e o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, que seria realizada na última quarta-feira (13), como uma tentativa de abrir um canal de negociação entre os dois países.
Ficou evidente, no cancelamento, mais uma vez, a participação de Eduardo Bolsonaro que vem trabalhando incessantemente para impedir qualquer negociação entre o Brasil e os Estados Unidos. Quando uma comitiva de senadores procurou o parlamento norte-americano para construir uma ponte de entendimento, Eduardo declarou: “Trabalho para que não encontrem diálogo”. Nesta semana, Eduardo reiterou estar disposto a radicalizar suas ações nos Estados Unidos em favor de novas sanções ao Brasil.
Diante desse cenário, faz bem o presidente Lula em evitar um diálogo direto com o presidente Trump. O modo operandi de Trump é, quase sempre, tentar humilhar os seus adversários políticos, como fez com Zelensky. Lula não precisa passar por esse vexame até porque, como constatou recente pesquisa Ipsos-Ipec, 75% dos brasileiros reconhecem que o tarifaço de Trump tem, tão somente, motivação política, e 68% consideram que o Brasil deveria buscar outros parceiros comerciais para substituir o comércio inviabilizado com os Estados Unidos.
Afinal, é bom repetir: o Brasil não é quintal dos Estados Unidos, mesmo que alguns – até mesmo brasileiros – estejam se esquecendo disso.