Estamos vendo no trânsito de nossa cidade uma profusão de veículos elétricos chineses. Não apenas carros, mas vários produtos de todos os matizes são hoje “made in China”. O que está ocorrendo?
No final de 2025, a Nature, destacada revista científica, comentou os últimos dados da ASPI Critical Technology Tracker, uma importante instituição australiana que mapeia e monitora as pesquisas de mais elevado impacto em 74 tecnologias de ponta nas mais diversas áreas da ciência.
No início deste século (e em boa parte do século passado), os Estados Unidos da América lideravam em mais de 90% dessas tecnologias. Na edição de 2025, a liderança dos EUA permanece em apenas 8 de 74, como em computação quântica e geoengenharia.
Nas remanescentes 66 tecnologias de ponta, a liderança em pesquisa científica é, pasme, caro leitor ou leitora, da China. A China é o país que mais publica em revistas de ponta em tecnologias tão variadas como energia nuclear, biologia sintética, pequenos satélites e computação em nuvem.
O estímulo governamental para ciência na China é tremendo e vem aumentando ano a ano. Em 2024, excedeu 3,6 trilhões de yuan (equivalente a 520 bilhões de dólares), um aumento de 8,3% em relação a 2023. O país do dragão publicou 878.300 papers (artigos científicos) em 2024 (dados da Web of Science Core Collection), um crescimento expressivo, comparado com 26.200 publicações no ano 2000, no início deste século.
A leitora e o leitor poderiam pensar que número não é qualidade, mas veja no início desta coluna, que as publicações mais citadas por seus pares no resto do mundo (o que traduz qualidade), são na maioria de autores chineses.
O Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden na Holanda produz o Leiden Rankings, ranking global das universidades. Desde o início dos anos 2000, sete universidades norte-americanas estavam entre as dez melhores, lideradas pela Universidade de Harvard. Hoje Harvard caiu para terceiro lugar.
Sete universidades chinesas estão entre as dez que mais produzem no mundo, lideradas pela Universidade de Zhejiang, na cidade de Hangzhou, na China. Investimento em ciência e universidades é prioridade do governo chinês.
O presidente Donald Trump, que vem desencadeando uma perseguição sistemática a Harvard e às principais universidades americanas, cortando financiamento, expulsando estudantes estrangeiros ou simplesmente dificultando seu acesso, pode dar um valioso empurrão à ascensão das universidades chinesas. Tudo bem que possam existir críticas a movimentos universitários nos EUA, mas boicotes, perseguição, corte de verbas e de custeio não são medidas inteligentes.
Existe, sem dúvida, uma nova ordem mundial em desenvolvimento. Não há dúvidas de que as lideranças do governo norte-americano não estão praticando as iniciativas mais adequadas para enfrentá-la.