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Covid-19

Um ano após início da pandemia, Brasil segue preso em um déjà-vu

De novo, o presidente manda tocar a vida sem “mimimi”, com desprezo absoluto pelas mortes. Desacredita as máscaras, mais uma vez estimula aglomerações, afinal o show deve continuar...

Publicado em 11 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 mar 2021 às 02:00
Lauro Ferreira Pinto

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Lauro Ferreira Pinto

lauropintoneto@gmail.com

Bolsonaro, sem máscara, em meio a apoiadores no Ceará
Bolsonaro, sem máscara, em meio a apoiadores no Ceará Crédito: JOSE DIAS/PR
"Déjà-vu" é uma expressão francesa que traduz uma sensação ou ilusão que faz com que uma pessoa acredite já ter visto ou vivido alguma experiência. Os apaixonados por cinema conhecem um filme de 2006, dirigido por Tony Scott, irmão de Ridley Scott, com Denzel Washington, misto de policial e ficção cientifica, no qual o ator principal pode voltar no tempo e tentar impedir uma sequência trágica.
A expressão déjà-vu se popularizou entre nós para se referir a uma sensação de repetição real de fatos e ocorrências, como se ficássemos presos no tempo, numa armadilha, sem sair do lugar. Em meados de março de 2021, passado um ano de pandemia, essa é a sensação vivida pela imensa maioria dos profissionais de saúde, que vem lutando contra essa nova doença, tentando fazer esclarecimentos em uma sociedade doentiamente polarizada, com todos exaustos de trabalho, sofrendo também pelo medo de adoecer, trazer a doença para familiares queridos, cansados de vigiar e cuidar, cansados de orientar as mesmas coisas, repetir os mesmos cuidados em um mantra interminável e monótono.
De novo, o presidente manda tocar a vida sem “mimimi”, com desprezo absoluto pelas mortes, desacredita as máscaras, mais uma vez estimula aglomerações, afinal o show deve continuar... Impressionante que a narrativa oficial não muda, apesar dos casos internacionais de sucesso, no combate a pandemia, por caminhos distintos.
Exemplos que ocorrem em países diversos como Coreia do Sul, China, Austrália, Vietnã, Nova Zelândia, Taiwan. Portugal e  Reino Unido conseguiram reverter situações muito adversas de modo competente, há semanas. Obviamente não é questão ideológica, já que governos de diferentes tendências e valores foram excepcionalmente bem-sucedidos na gestão da pandemia! Enfim, é uma questão de gestão, não de pirotecnias, de um palanque em moto-contínuo neste país infeliz.
Israel, honrando a tradição de eficiência do povo judeu, está dando um show. O governo conservador de Benjamin Netanyahu promoveu um lockdown rigoroso e rápido, com vacinação em massa com as novas vacinas de RNA, fazendo despencar internação e mortalidade por Covid.
governo brasileiro mandou uma grande comitiva lá para ver um spray nasal ainda em pesquisa. Parece piada, mas não é!! O Brasil, que em razão do absoluto descontrole da pandemia foi campo de testes de várias vacinas, desprezou, com negacionismo e arrogância, a chance de negociá-las  há mais de seis meses.
Agora, premido pela queda de popularidade, o governo corre atrás. Pior, mesmo ao custo de mais de 260 mil vidas, a economia segue um caos com desemprego e volta da inflação. Nem a saúde, nem a economia! Ambas indo pelo ralo!
Vivemos tempos duros, que parecem intermináveis... A história da humanidade é rica em pandemias, épocas desafiadoras, que fazem emergir o que de melhor e pior há na espécie humana. Na verdade, depende de cada um de nós fazer o melhor para seguir adiante com o maior número possível de vidas poupadas.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doencas Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaco quer refletir sobre saude e qualidade de vida na pandemia.

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