Domingo de carnaval, a maior expressão da nossa cultura, a festa da fantasia, da alegria e dos excessos. Peço licença para atravessar a avenida, contudo, com um samba um tanto triste, porém digno de atenção. Os últimos dias trouxeram notícias que causam espanto e indignação, e que deveriam envergonhar as nossas lideranças públicas. Mas o que vemos é o contrário, elas se mostram indiferentes, algumas parecem até achar graça.
Na semana passada, saiu o relatório da Transparência Internacional sobre o Índice de Percepção da Corrupção, mostrando o Brasil estagnado, pelo segundo ano consecutivo, em sua pior nota da série histórica, iniciada há mais de 30 anos, em 1995.
Numa escala de 0 a 100, tiramos apenas 35, ficando na 107ª posição entre 182 países. O Brasil, uma das maiores economias do mundo, aparece no mesmo nível de Sri Lanka, Nepal e Serra Leoa, países sem relevância no cenário global, além da Ucrânia, que está em guerra.
Contribuíram para esse resultado, segundo o relatório, situações como as emendas parlamentares, que passaram a ser impositivas, engessando o orçamento, os desvios no INSS e o caso Master. Em relação ao INSS, a Transparência criticou o governo, citando a demora na adoção de medidas, entre elas a substituição do ministro da Previdência. No caso Master, a ONG afirma que as tentativas de influência atravessariam os Três Poderes. Na semana passada, a Polícia Federal pediu a suspeição do ministro relator, que acabou deixando o caso, evitando maiores constrangimentos para o STF – e para o resto do país.
Esses episódios reforçam a necessidade de um código de conduta no STF, como vem defendendo o próprio presidente da corte, para revisar critérios que permitem que parentes de ministros advoguem perante o tribunal sem qualquer restrição.
Recente reportagem mostrou que advogados parentes de ministros conseguiram 70% dos casos no tribunal após a posse de seus familiares, um índice que não se explicaria somente pela meritocracia. A Corte precisa fortalecer a sua imagem, que acaba abalada por situações como essas e também pelos perdões concedidos a envolvidos em grandes escândalos como mensalão e petrolão, com desvios comprovados e confessados, e que acabaram em pizza, reforçando uma sensação de impunidade que corrói a confiança nas instituições democráticas.
Na questão fiscal, um dos maiores desafios hoje, vemos os Poderes da República remando na direção contrária, contribuindo para agravar o déficit público, o que tem reflexos na taxa de juros, no consumo, no desempenho da economia em geral. Calcula-se que somente o reajuste de salários e penduricalhos aprovados recentemente pelo Congresso terá um custo adicional de R$ 790 milhões neste ano. Para efeito de comparação: o orçamento anual do município de Cariacica, uma cidade importante da Grande Vitória com mais de 350 mil habitantes e enormes desafios na área social, está na faixa dos R$ 960 milhões.
Brasília costuma ser chamada de ilha da fantasia: é a cidade com a maior renda per capita do país e vive distante da realidade nacional. Mas mesmo para padrões históricos, suas excelências às vezes exageram.
Temos mencionado nos últimos textos que nossas lideranças deveriam inspirar a sociedade, servindo de referência para gerações futuras, como foi Ulysses Guimarães, que teve atuação decisiva na redemocratização e na constituinte e hoje dá nome ao plenário da Câmara dos Deputados, ou Gerson Camata, para ficar num exemplo estadual, um governador que pavimentou estradas e que dialogava com todos.
Esse modelo de inspiração não tem nada a ver com esquerda ou direita, essa polarização tola que nos prende a debates inúteis, mas sim com a necessidade de lideranças que efetivamente honrem suas carreiras e que despertem admiração nas famílias, nos filhos, nos eleitores em geral, pelo que de fato fazem pelo país, na implantação de uma agenda de prosperidade, e não uma agenda populista de efeito eleitoral imediato, mas sem sustentabilidade no futuro.
A história nos ensina que o populismo não dá resultados. Mal comparando, na vida familiar, é como a educação dos filhos: eles precisam de disciplina e de limites para crescerem com independência. O remédio pode ser amargo, mas é necessário. As medidas que o país precisa podem ser impopulares num primeiro momento, mas são necessárias para garantir prosperidade e inclusão.
A agenda necessária para o Brasil é mais do que conhecida: as reformas estruturais, a redução da burocracia do Estado, a ampliação da nossa fatia no mercado internacional, acordos comerciais para gerar empregos aqui, o estímulo à inovação tecnológica e à indústria nacional e a busca por maior transparência e segurança jurídica, com o devido enfrentamento à corrução.
A implantação dessa agenda demanda lideranças que inspirem admiração, respeito e autoridade. É uma agenda de construção de serviços públicos que de fato atendam às necessidades da população. Quem sabe Brasília, após a queda de algumas máscaras, decida rasgar de vez a sua fantasia na Quarta-feira de Cinzas. Um choque de realidade faria bem para o país.
Aproveite a folia. Daqui a pouco começa 2026!