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Economia

Negacionismo ou apocalipse: ambos criam imobilismo na questão ambiental

O que precisamos é de uma transformação profunda no nosso modo de viver e produzir, mas de forma realista, gradual e com incentivos práticos para que pessoas e empresas mudem o seu estilo de consumir e atuar no mercado

Publicado em 22 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

22 ago 2021 às 02:00
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

leocastro@fibrasa.com.br

Alguns projetos econômicos veem o meio ambiente como lixeira para seus resíduos
Se todos seguirem a trajetória de devastação ambiental, simplesmente não haverá recursos naturais suficientes para garantir a nossa existência Crédito: Nico Wall/ Pixabay
Dias atrás me encontrei casualmente com o economista Gesner Oliveira, professor da FGV-SP e ex-presidente do Cade, que acaba de lançar um livro interessante, em parceria com o administrador de empresas Artur Villela Ferreira (inclusive já tem um podcast no Spotify, que recomendo). Na obra “Nem negacionismo, nem apocalipse – economia do meio ambiente: uma perspectiva brasileira”, os autores fazem uma abordagem da questão ambiental sob a ótica do nosso país, como o título sugere. A literatura do gênero costuma refletir uma visão centrada na realidade do Hemisfério Norte.
Começando pelo título, Gesner observa que as posturas negacionistas ou apocalípticas sobre a questão climática têm o mesmo efeito: ambas geram o imobilismo.
A ideia dos autores está longe de ser uma pregação religiosa cheia de dogmas. O que precisamos é de uma transformação profunda no nosso modo de viver e produzir, mas de forma realista, gradual e com incentivos práticos para que pessoas e empresas mudem o seu estilo de consumir e atuar no mercado.
A realidade nua e crua é a seguinte: desde os anos 70, o consumo total de recursos naturais no nosso sistema de produção moderno é muito superior à capacidade da natureza de recompor esses mesmos recursos. Se fôssemos comparar a uma conta corrente bancária, é como se estivéssemos há 50 anos no cheque especial. Essa conta começa a ser cobrada agora, e pagaremos muito caro se não fizermos algo a respeito. Aliás, já estamos pagando.
Um dos grandes equívocos apontados pelos autores é o argumento de que o Brasil e demais países emergentes podem devastar o meio ambiente à vontade porque foi assim que as nações ricas prosperaram ao longo da história. Bem, se todos seguirem essa mesma trajetória, simplesmente não haverá recursos naturais suficientes para garantir a nossa existência neste planeta como conhecemos hoje, e os efeitos da devastação já são evidentes.
O Brasil pode exercer uma liderança mundial nessa agenda. Afinal, dois terços de sua área são preservados. São áreas públicas, reservas indígenas, parques e áreas privadas subordinadas a uma legislação que já limita seu uso. Só que esse patrimônio, que beneficia todo o planeta, não nos garante uma remuneração ou vantagem prática.
Se um ativo de alto valor não é devidamente reconhecido como tal pelo sistema de produção capitalista, ele acaba sendo mesmo alvo de grande ameaça. Com boa diplomacia e influência internacional, o Brasil poderia rentabilizar esse ativo.
Em outras palavras: o mundo deve nos pagar um bom dinheiro para nos ajudar a preservar um patrimônio que beneficia todo o planeta. Pessoas e empresas não vão mudar de hábito “apenas” para salvar o planeta, por mais nobre que seja a causa. É preciso planejamento, incentivo tributário, estímulo a energias renováveis e reciclagem. E isso é também uma questão de business.
A agenda ESG (ambiental, social e governança, em inglês) não é um modismo. Investidores, consumidores e empresas de todo mundo estão cada vez mais exigentes quanto às suas decisões de consumo ou planejamento. O agronegócio brasileiro é um bom exemplo de como a “Marca Brasil” pode ser bem vendida no exterior. O setor não precisa desmatar para se expandir, pelo contrário: o desmatamento prejudica nossas vendas externas. É um tiro no pé.
Outra área que merece atenção é o setor de transportes, onde temos muito a evoluir. Dos seis maiores países do mundo em área (Rússia, Canadá, China, EUA, Brasil e Austrália), o nosso é o único que transporta suas cargas basicamente por rodovias. Poderíamos explorar mais as ferrovias ou a navegação de cabotagem.
Esse debate deverá dominar a agenda global cada vez mais. E o Espírito Santo, como poderia se posicionar? Temos pelo menos duas iniciativas interessantes. Primeiro, o programa de Gestão das Águas e Paisagens, uma parceria com o Banco Mundial, para promover uma gestão integrada das águas, solo e recursos, prevendo recuperação da cobertura florestal, saneamento ambiental, gestão de riscos e prevenção de desastres.
O outro programa é Projeto Reflorestar, para a conservação e recuperação da cobertura florestal, com possibilidade de geração de oportunidades para o produtor rural, estimulando práticas de uso sustentável do solo.
Mas temos muito a fazer em áreas como geração de energia, incentivo a uso de veículos elétricos, florestas plantadas, reciclagem, regularização fundiária, dentre outros. Podemos ainda rever o processo de licenciamento estadual para gerar velocidade e assertividade, criar incentivos econômicos, trabalhar com informações precisas, ganhar agilidade. Tudo isso pode colocar o Espírito Santo na dianteira deste gigantesco mudo de oportunidades.
Precisamos focar cada vez mais nesse tipo de iniciativa, porque o nosso futuro, literalmente, depende disso.

Léo de Castro

Empresário, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaço, aborda economia, inovação, infraestrutura e ambiente de negócios

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