O ciclo de dois anos de pandemia acelerou tendências e provocou profundas mudanças em diversos campos da atividade humana, incluindo hábitos de consumo, trabalho e lazer. Neste início de ano, com a retomada dos trabalhos presenciais e a reocupação de escritórios, já conseguimos perceber tendências irreversíveis de novas utilizações de espaços imobiliários e de novas formas de trabalhar e estabelecer conexões pessoais e profissionais.
Uma pesquisa mundial divulgada em dezembro do ano passado pela JLL, empresa global de serviços imobiliários sediada em Chicago, mostra que quase metade dos inquilinos de imóveis comerciais, ou 41%, pretende aumentar o uso de espaços flexíveis como estratégia para orientar os trabalhos na retomada das atividades, num período ainda marcado por incertezas nos rumos da economia.
Esses espaços flexíveis representam a possibilidade de se reduzir ou ampliar o ambiente dos escritórios, reduzindo ou aumentando o número de profissionais e de postos de trabalho, de acordo com a evolução dos negócios, baseado no conceito de “paredes de elástico”, indo além do conhecido coworking. A JLL estima que, até 2030, pelo menos 30% do mercado mundial vai operar dessa forma, com as paredes de elástico.
Essa flexibilidade ocorre não somente com espaços, mas também com o relógio ou com a relação temporal, e com a opção pelo local de trabalho: 63% dos trabalhadores ouvidos na pesquisa da JLL disseram preferir um modelo híbrido, em vez de uma jornada estritamente presencial ou em home office.
Toda essa fluidez dialoga bem com o espírito da chamada geração Z, os jovens nascidos entre 1995 e 2010, que é a primeira geração realmente nativa digital.
Estudo divulgado pela Forbes, realizado pela consultoria McKinsey em parceria com a agência de pesquisa Box 1824, mostra que essa geração não faz mais a divisão convencional entre vida pessoal e profissional, o que muda o conceito de jornada de trabalho. É uma geração menos apegada a questões materiais e mais ligada em experiências reais, com uma cultura de inovação, criatividade e flexibilidade.
Do ponto de vista da empresa ou do investidor, o novo modelo de ocupação dos espaços permite maior agilidade e controle de custos, com a possibilidade de consumir um escritório por algumas horas, semanas ou meses, sem imobilizar investimento em um contrato de aluguel por quatro ou cinco anos.
O conceito de coworking, ou escritórios compartilhados, é antigo. A multinacional Regus, que oferece espaços de trabalho em 120 países e opera em Vitória, começou a atuar nesse modelo na Europa nos anos 80. Com a pandemia, essa tendência ganha novo impulso, tornando cada vez mais evidente a vantagem das conexões e do intercâmbio cultural possibilitados pela convivência compartilhada.
As vantagens financeiras do coworking são bem conhecidas: a economia com despesas administrativas, segurança, energia, limpeza, água etc. Mas além dos custos e da flexibilidade, também fica cada vez mais nítido o benefício da geração de novas energias e oportunidades a partir da convivência de diversas empresas no mesmo ambiente de trabalho.
Esse tem sido o foco de operadoras como a WeWork, com atuação Global, e o NaCapital, no Espírito Santo: geração de energia a partir da formação de laços entre os residentes. Grandes empresas também criaram espaços que objetivam, mesmo sendo mono-usuário, provocar essa troca e capturar as vantagens desse modelo. É o caso do Hub Colaborativo da Vale em Vitória.
Trabalhar num mesmo ambiente gera um senso de pertencimento, que é diferente de uma relação imobiliária convencional e fria. Além do compartilhamento dos custos, há a possibilidade de interações, de eventos de conteúdo e de happy hour, e também de compartilhamento de dores e aflições, com a busca conjunta por soluções, que podem estar na mesa ao lado.
O diálogo entre colaboradores que não são da mesma empresa, mas trabalham juntos, cria um ambiente favorável à inovação. A mudança mais importante que a geração Z traz ao mercado de trabalho, de acordo com aquele estudo divulgado pela Forbes, pode ser traduzida na preferência pela qualidade da entrega em detrimento do controle do funcionário. Nas empresas da geração Z, há uma cultura cada vez mais consolidada de inovação e flexibilidade.
Essa tendência valoriza ambientes descontraídos que favorecem a interação, com estações de café, espaços para meditação ou videogames e salas individuais para quem desejar mais tranquilidade para concentração. O estilo Google ganha adesão. As empresas que migram para essas estruturas evoluem em produtividade, cultura e retenção de talentos e tornam-se diferenciadas.
O Spaces, coworking de Amsterdã, elaborou um manifesto para seus residentes, que pode resumir bem o espírito do tempo.
Em resumo, eles dizem: “Acreditamos que o trabalho é mais sobre pessoas e ideias, e menos sobre coisas. Estimulamos uma cultura em que pessoas interessantes possam desenvolver trabalhos com empolgação. Incentivamos nossos membros a estabelecer conexões e compartilhar ideias. Se você é um pequeno empreendedor ou uma grande corporação, nós facilitamos o seu sucesso, com um ambiente repleto de lideranças inovadoras e de talentos confiantes na conquista de seus objetivos”.
Esse trecho final é interessante: os novos espaços com paredes de elástico não são somente para pequenos negócios, mas também para grandes empresas, que já começam a enxergar as vantagens desse modelo de trabalho. Esperamos que esses ventos soprem com cada vez mais força no Espírito Santo, favorecendo o nosso ecossistema de inovação e a diversificação da economia local, gerando novas oportunidades.