O empreendedor brasileiro precisa enfrentar com urgência a agenda da produtividade, sem depender de políticas públicas ou ações governamentais. O Brasil figura sempre na lanterna nos rankings mundiais de produtividade e competitividade. Recente levantamento feito pelo IMD em parceria com a Fundação Dom Cabral mostrou o país em penúltimo lugar, na 68ª posição, no item que mede qualificação da força de trabalho, e na 67ª posição em produtividade.
Se fôssemos esperar decisões de governo, não veríamos investimentos ousados como o novo centro de inteligência artificial industrial da Tractian, startup brasileira especializada na fabricação de sensores e sistemas de manutenção de indústrias.
Acompanhei a inauguração do novo Tractian AI Center, um investimento de R$ 60 milhões numa área de 10 mil metros quadrados, o maior da América Latina para o setor, contando com dois capixabas na gestão, Leonardo Vieira, cofundador da empresa, e Leonardo Scopel, diretor de vendas.
A estimativa é que o AI Center gere mais de R$ 120 bilhões por ano em ganhos de disponibilidade industrial, nos mercados atendidos pela empresa. O espaço funcionará como um polo de colaboração, com hackathons, visitas acadêmicas e imersões de clientes e parceiros. O centro está conectado a universidades como Poli-USP, Unesp e Unicamp, além de parcerias internacionais com MIT, Berkeley e Georgia Tech.
Visitar esse centro é uma injeção de ânimo e uma inspiração para o empreendedor brasileiro que precisa abraçar essa causa. A pauta central do industrial brasileiro hoje deve ser a produtividade, por meio de investimentos em automação, transformação digital e inovação.
Não é fácil enfrentar essa agenda num país com juros nas alturas, um Custo Brasil de 20% do PIB e uma insegurança jurídica em que até o passado é incerto. Mas é o único caminho. Por isso, um projeto como o centro de IA da Traction deve ser conhecido, aplaudido e utilizado pela indústria brasileira.
A especialidade da empresa é desenvolver soluções integradas de sensores industriais, software e inteligência artificial para aumentar a confiabilidade e a eficiência operacional de ativos industriais. Ela possui sedes no Brasil, México e Estados Unidos e atende mais de mil plantas industriais no mundo todo.
Seu objetivo em resumo é reduzir drasticamente o número de horas paradas dos equipamentos. É uma ferramenta fundamental para enfrentar a agenda da produtividade, podendo antecipar quebras, estabelecer um cronograma de manutenção proativa, medir o chamado OEE (Overall Equipment Effectiveness, ou Eficácia Global do Equipamento em português), identificando a eficiência de máquinas, linhas de produção ou processos de fabricação.
Essa pauta precisa ser aliada também à educação técnica profissionalizante, para que possamos contar com capital humano capaz de lidar com a tecnologia disponível.
Pude conversar com Leonardo Scopel, diretor de vendas da Tractian, e ele observou: "O Brasil tem uma densidade de talentos muito grande, ele pode ser um polo que consegue reter grandes cientistas e pesquisadores para desenvolver tecnologia de ponta dentro do nosso país. Acreditamos que investir em tecnologia é a melhor maneira de conseguir passar pelas várias oscilações do mercado, da política, da economia. Esperamos que todo esse nosso investimento possa promover a economia brasileira, promovendo talentos aqui dentro, para realmente desenvolvermos tecnologia de impacto global dentro do nosso país".
O cofundador Leonardo Vieira completa: “Decidimos investir na vanguarda da inteligência artificial industrial porque sabemos que a dor é real no setor. Com ou sem o governo brasileiro, decidimos fazer porque é importante para a produtividade nacional e para a soberania do país. Entendemos que o setor industrial é muito relevante, e o Brasil pode estar na vanguarda da construção de tecnologia de ponta. É isso que a construção do AI Center representa”.
De fato, é inspirador, e precisamos fazer essa revolução sem esperar nada de ninguém porque, no Brasil, o empresário que espera por alguma política pública está morto. Organizações do setor produtivo como a CNI – Confederação Nacional da Indústria já apresentaram inúmeras sugestões de políticas para impulsionar a competitividade e a produtividade da economia nacional, mas as políticas efetivamente implantadas nos últimos anos são de baixíssimo retorno para a sociedade.
O que vemos são políticas que oneram o setor produtivo e induzem o país a uma cultura do rentismo, uma cultura da baixa produção, que aprisiona o país na armadilha da renda média, com dificuldade de escalar para a alta, com grandes distorções e desigualdades. Esse modelo concentra renda, e quem quer prosperar por meio do empreendedorismo tem que carregar por conta própria esse desafio da revolução da produtividade.
O país precisa compreender que quem promove a geração de riqueza são os empresários. Empresa ruim é que precisa de governo bom. Empresa boa prospera com qualquer governo. Nosso único caminho é a produtividade!