O tráfico de animais é um dos temas mais importantes que estão sendo debatidos no 24º Congresso Brasileiro de Ornitologia, que será encerrado nesta quinta-feira (2), em Santa Teresa, região de grande biodiversidade no Espírito Santo. Esse tipo de crime é atualmente uma das principais ameaças à biodiversidade brasileira e ultrapassa fronteiras.
As aves são as espécies mais visadas pelos traficantes - e já ultrapassam 60% dos casos no país. “O tráfico de animais é um problema complexo, pois tem relação com outros crimes, como a lavagem de dinheiro e até mesmo a exploração de crianças e adolescentes, que são usadas para capturar os animais na natureza ou exibir esses animais na Internet”, alerta o pesquisador Antônio Carvalho, especialista no combate ao tráfico de vida silvestre da organização não-governamental WCS Brasil, que já atuou também como pesquisador no Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA).
Um dos casos mais emblemáticos do contrabando sem fronteiras aconteceu recentemente, e teve como alvo a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari). Ave endêmica da Caatinga, ela tornou-se alvo frequente dos criminosos.
Em 2023 e 2024, 65 aves dessa espécie foram apreendidas em operações no Brasil, no Suriname e em países distantes, como Índia, Bangladesh e Togo. A polícia encontrou até ovos da arara-azul-de-lear sendo contrabandeados por traficantes ucranianas no interior de Minas Gerais, que os quebraram tão logo foram descobertas.
“Identificamos que as aves estavam sendo contrabandeadas em um complexo esquema de tráfico internacional que tinha como destino um novo zoológico na Índia”, revela Carvalho.
PERIGO DE EXTINÇÃO
A arara-azul-de-lear tem uma população de apenas 2,5 mil indivíduos e é classificada como em perigo de extinção. A circulação de conteúdos que exploram animais nas redes sociais e plataformas de compartilhamento de vídeos tem intensificado o tráfico de animais. Em 2023, Carvalho identificou casos de sofrimento visível e oculto em 96 espécies de 39 países. A maior parte é de animais silvestres.
“O mais comum são esses animais serem capturados da natureza para serem tratados como animais de estimação nas redes sociais. Mas eles não são pets e essa retirada do habitat natural causa sofrimento aos animais e ameaça a manutenção da biodiversidade”, enfatiza o especialista.
Para tentar frear o tráfico de animais, a organização WCS Brasil atua em várias frentes. Uma delas é a capacitação de agentes que trabalham nos aeroportos brasileiros. Apesar de avaliar que a capacidade de enfrentamento ao problema tem sido incrementada no país, Carvalho afirma que o combate ao tráfico de animais não depende apenas dos órgãos de fiscalização, mas do envolvimento de toda a sociedade.
“As pessoas não devem curtir e compartilhar esses conteúdos e sempre denunciar essas produções para as plataformas de vídeos e ao Ministério Público de cada estado”, orienta Carvalho.
O 24º Congresso Brasileiro de Ornitologia, que começou no domingo (28/9) em Santa Teresa, é promovido pela Sociedade Brasileira de Ornitologia e pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA).