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Leonel Ximenes

Hoje realmente é a data de aniversário de Cariacica?

Coluna ouviu especialistas para esclarecer essa polêmica na cidade, que tem duas datas como referência

Publicado em 24 de Junho de 2021 às 02:05

Públicado em 

24 jun 2021 às 02:05
Leonel Ximenes

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Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

Bandeira de Cariacica com o brasão que indica a data de emancipação da cidade: 30 de dezembro de 1890
Bandeira de Cariacica com o brasão que indica a data de emancipação da cidade: 30 de dezembro de 1890 Crédito: Reprodução da internet
A polêmica - anual - está de volta, inclusive nas redes sociais: hoje, 24 de junho, é de fato a data de aniversário de Cariacica? Bem, não há dúvidas de que neste dia se comemora o padroeiro da cidade, São João Batista, mas também não dá para ignorar que no próprio brasão do município está lá estampada, de forma clara, que a data magna de Cariacica, a da emancipação política, é 30 de dezembro. E como fica?
A atual administração, comandada por Euclério Sampaio (DEM), prefere comemorar os 131 anos da cidade nesta quinta-feira (24) mesmo, diferentemente da gestão anterior, liderada por Juninho (Cidadania), que tentou estimular a comemoração no dia 30 de dezembro.  A Lei Orgânica do município, por sua vez, parece endossar o atual prefeito ao determinar que a comemoração da emancipação político-administrativa seja feita em 24 de junho, contrariando o que indica o brasão oficial 
A propósito, o 24 de junho ganhou neste ano um reforço importante, que vem do Palácio Anchieta. É que o governador Renato Casagrande (PSB) sancionou nesta quarta-feira (23), véspera da festa programada pela prefeitura, o projeto de lei do deputado Marcelo Santos (Podemos), aprovado pela Assembleia, que transfere simbolicamente a capital do Estado para as terras cariaciquenses. Por sinal, é a primeira vez que essa deferência, restrita até então a Vila Velha, Domingos Martins e Anchieta, é feita a Cariacica.
Outra curiosidade é que o prefeito Euclério Sampaio, que é evangélico, não hesitou em reforçar em sua cidade uma data eminentemente católica, marcada por grandes festas em todo o país em louvor ao santo, embora neste ano os festejos estejam praticamente abolidos por causa da pandemia de Covid-19.
Fora do universo político, também há quem apoie a comemoração da festa da cidade no dia do padroeiro. “Não vejo problema algum, a data é o povo que escolhe, a tradição. Se o povo se identificou mais com o 24 de junho, que a vontade popular prevaleça”, analisa o historiador Fernando Achiamé, especialista em história do Espírito Santo.
Para o historiador, as datas cívicas nem sempre são precisas e muitas vezes não têm nem base histórica. Ele cita como exemplo a data maior do próprio Estado do Espírito Santo. “De uns tempos para cá historiadores creem que o 23 de Maio foi estabelecido depois da Independência [do Brasil, em 1822] de modo arbitrário, porque não existem documentos provando a chegada do [colonizador] Vasco Fernandes Coutinho nesse dia. Mas como viram que naquele ano se comemorou a 23 de maio o Domingo de Pentecostes…”
"A data de 24 de junho, dia de São João Batista, o padroeiro da cidade, resgata a história de Cariacica. Não é porque sou evangélico que não vou respeitar a tradição"
Euclério Sampaio - Prefeito de Cariacica
Achiamé cita outro autor para lançar uma dúvida: o próprio nome do Estado não teria relação com o dia do calendário litúrgico católico: “A tese nova é que o nome Espírito Santo foi trazido por Vasco Fernandes Coutinho devido a essa forte devoção na terra dele, hipótese levantada pelo historiador João Eurípedes Franklin Leal”.
Opinião semelhante tem Getúlio Pereira Neves, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Para ele, vale mais a tradição: “Já existia em Cariacica o povoado, a antiga aldeia, antes da emancipação política. É certo se comemorar em junho”, defende. “Isso acontece também em Colatina, que tem duas datas, em dezembro e em agosto”, reforça.
Há um outro exemplo de cidade brasileira em que a data do padroeiro é mais forte do que a da fundação da cidade: o Rio de Janeiro. Na ex-capital do país, fundada em 1º de março (a data cívica), o feriado é comemorado em 20 de janeiro, dia de São Sebastião, o padroeiro dos cariocas. Mas, oficialmente, as autoridades da capital fluminense não ousam dizer que o aniversário da cidade seja no dia do santo - a data 1º de março ainda é a referência, embora seja um dia normal de trabalho.
“Essas datas comemorativas no Brasil têm vida semelhante às leis, umas pegam e outras não pegam”, resume bem Achiamé, mostrando que esse é mais um traço cultural da nossa sociedade. Se bem que, no caso das leis, essa prática nem sempre é positiva.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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