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Eleições 2024

Guerra santa: pastores se dividem sobre apoio a Weverson na Serra

Candidato do PDT disputa o segundo turno contra Pablo Muribeca (Republicanos). "Pauta LGBT" entrou em cena

Publicado em 15 de Outubro de 2024 às 03:00

Públicado em 

15 out 2024 às 03:00
Letícia Gonçalves

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Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Weverson Meireles, candidato à Prefeitura da Serra entrevistado por A Gazeta e CBN Vitória
Weverson Meireles, candidato à Prefeitura da Serra entrevistado por A Gazeta e CBN Vitória no primeiro turno Crédito: Ricardo Medeiros
Enquanto surgiam rumores de que uma entidade evangélica havia retirado apoio a Weverson Meireles (PDT) no segundo turno da disputa pela Prefeitura da Serra, o pedetista estava reunido com diversos pastores para estancar a sangria, na noite de segunda-feira (14), e acabou por assinar uma carta econômica nas palavras, mas bastante ampla em significado.
O candidato do PDT comprometeu-se com a Associação de Pastores da Serra (Apes) a ser "categoricamente contrário" a "qualquer pauta que contrarie a palavra de Deus".
O encontro com os líderes evangélicos, de acordo com a equipe da campanha do pedetista, estava marcado desde a semana passada.
Mas ao mesmo tempo em que a conversa transcorria lá na Serra, de outro lugar, ao telefone, o presidente do Conselho Político da Convenção das Assembleias de Deus no Estado do Espírito Santo (Cadeeso), pastor Rafael Ferreira, dizia-me que havia retirado o apoio a Weverson.
A reviravolta no conselho, de acordo com ele, deu-se devido à "pauta LGBT", referindo-se a um trecho do programa de governo do candidato do PDT.
Já na reunião entre líderes religiosos e Weverson, outro integrante da Cadeeso, pastor Gersilio Ribeiro, que faz parte da mesa diretora da entidade, garantiu que a Convenção das Assembleias de Deus segue ao lado do candidato do PDT, como esteve no primeiro turno.
Ribeiro contou que o colegiado não se reuniu para deliberar nada diferente disso, logo, o endosso continua. 
O episódio ilustra o impacto de uma estratégia adotada por críticos de Weverson, não raro aliados do adversário dele no segundo turno, Pablo Muribeca (Republicanos). 
E também mostra a tática do candidato do PDT para rebater a tentativa de lhe fazer perder votos entre eleitores conservadores.
QUE "PAUTA LGBT" É ESSA?
Um trecho do programa de governo de Weverson tem sido compartilhado em grupos de WhatsApp. A mensagem mostra a menção à sigla 'LGBTI+" e associa o pedetista a "ideologia de gênero nas escolas".
O plano está no DivulgaCand, site oficial do Tribunal Superior Eleitoral, desde o primeiro turno. O que está escrito lá, de verdade, é o seguinte:  
O programa menciona que, na Serra, há um Fórum LGBT e que, de acordo com o IBGE, "dez por cento da população se reconhece como LGBTI+". 
O texto cita, no mesmo parágrafo, pessoas em situação de rua e "pessoas em estado de uso abusivo de álcool". É uma lista de segmentos que precisariam de atenção do poder público no tópico "direitos humanos e cidadania".
O programa de Weverson propõe o "Projeto Cidadania nas Escolas e nas Comunidades", que é "ampliar, promover e abordar temas como igualdade, diversidade, não discriminação, assédio, respeito mútuo, entre outros".
"Por que ampliar? É um grupo tão representativo assim na sociedade?", questionou o pastor Rafael Ferreira, em entrevista à coluna, referindo-se à comunidade LGBTQIAPN+.
"No primeiro turno, não tínhamos conhecimento disso. A gente não caminha onde tem isso", afirmou. 

Arquivos & Anexos

Plano de governo de Weverson Meireles

Veja a íntegra do plano de governo do candidato do PDT. É o documento registrado na Justiça Eleitoral
Tamanho do arquivo: 673kb
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Depois da entrevista, Ferreira enviou nota à coluna em que diz: "Não vamos referendar à Mesa Diretora (da Cadeeso) a apreciação para manter o apoio (a Weverson). Ao tomarmos conhecimento das propostas do candidato, entendemos que elas não refletem nossos valores".
Já o pastor Gersilio Ribeiro, também da Cadeeso, ao lado de Weverson na reunião com líderes religiosos, considerou que está havendo "artimanhas de desespero para ganhar uma eleição".
"Isso é um ato unilateral. A Cadeeso continua, sim, mantendo o apoio à sua candidatura. Falo isso como diretor e com vários pastores da Cadeeso que estão presentes aqui".
Por fim, Weverson recebeu, de novo, o endosso do presidente da Associação de Pastores da Serra (Apes) Marcelo Henrique Ferreira, que já estava ao lado do pedetista desde o primeiro turno.
Só que, agora, com a assinatura de uma "carta compromisso" de quatro parágrafos.
Carta assinada por Weverson Meireles e pastor
Carta assinada por Weverson Meireles e pastor Crédito: Reprodução
Nela, o candidato do PDT à Prefeitura da Serra declara que não vai apoiar "ideologia de gênero nas escolas", "liberação das drogas", "aborto" e "qualquer outra pauta que contrarie a palavra de Deus".
"Ideologia de gênero" nem existe tal qual é apregoada, mas não vou entrar nesse assunto, pois perderíamos o foco, que é investigar a quantas anda a campanha eleitoral na Serra. Você pode ler sobre isso neste link aqui.
"Liberação de drogas" não é um tema em relação ao qual um prefeito possa decidir algo. É um debate restrito ao Congresso Nacional e à caneta do presidente da República, além de possíveis dúvidas a serem dirimidas pelo Supremo Tribunal Federal.
"Aborto" suponho que seja uma menção à possível flexibilação da legislação, o que também não é da alçada do prefeito e sim da esfera federal.
"Qualquer outra pauta que contrarie a palavra de Deus" bem, sobre isso nem sei o que dizer. É bem amplo.
A CAMPANHA
Um prefeito ou um candidato a prefeito pode, claro, como toda pessoa, ter opiniões sobre todos esses temas, contrárias ou favoráveis, mas é sintomático que isso seja relevante numa campanha eleitoral municipal.
No primeiro turno, não foi. Mas havia candidatos do PT e do PL a prefeito da Serra, que cumpriam o papel de personagens ideológicos. Só que lateralmente, já que eles estavam longe de serem os favoritos na corrida.
Na segunda etapa do pleito, o PT, inadvertidamente, orientou voto em Weverson. O apoio dos petistas foi rechaçado pelo PDT, pois a sigla não queria que a rejeição ao Partido dos Trabalhadores contaminasse Weverson e que a eleição fosse "nacionalizada".
Tarde demais.
O PL decidiu ficar neutro. Mas, implicitamente, os presidentes estadual e nacional do partido, Magno Malta e Valdemar Costa Neto, respectivamente, incentivam voto em Muribeca. Essas movimentações culminaram no que a coluna descreveu nos parágrafos anteriores. 
Resta saber o quanto isso vai impactar os eleitores da Serra.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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