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Eleições 2022

Ramalho, Meneguelli e a máquina de moer gente

Ex-secretário de Segurança e ex-prefeito de Colatina foram rifados da disputa pelo Senado. Eles têm mais do que isso em comum

Publicado em 05 de Agosto de 2022 às 02:10

Públicado em 

05 ago 2022 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Convenção do Republicanos neste domingo (30), em Vitória
Sérgio Meneguelli, de camisa branca, não fez o gesto que simboliza o número do Republicanos, desanimado, na convenção estadual do partido  Crédito: Natalia Bourguignon
Os dois recentes nomes rifados da corrida pelo Senado no Espírito Santo, o coronel da reserva da PM Alexandre Ramalho (Podemos) e o ex-prefeito de Colatina Sérgio Meneguelli (Republicanos) têm algo em comum, além das palavras escolhidas para resumir o desfecho de suas candidaturas – os dois falaram em "injustiça" e fim de "um sonho".
Eles também não têm participação orgânica nos partidos aos quais se filiaram e nem ligação sólida com os caciques dessas siglas. Sustentam as pretensões político-eleitorais na visibilidade e popularidade que alcançaram quando nem haviam ingressado nas legendas.
Assim, e em meio a um contexto peculiar, tiveram os planos frustrados pelos próprios correligionários.
O cargo de senador é majoritário, não tem as amarras para impedir a infidelidade partidária, como ocorre com os deputados federais, por exemplo. Se um eleito este ano resolver dar adeus ao partido que o elegeu já no ano que vem, não há nada que a agremiação possa fazer.
Quem não tem identidade ou vínculos sólidos com a sigla torna-se motivo de desconfiança. E uma peça mais fraca na engrenagem partidária é mais fácil de ser removida.
Meneguelli passou por ao menos três partidos antes de aportar no Republicanos: PPS, PSDB e PMDB.
Saiu do MDB (este já havia perdido o "P") em 2020, quando decidiu não disputar a reeleição para a Prefeitura de Colatina, e se filiou à atual sigla.
O ex-prefeito é uma espécie de popstar nas redes sociais, famoso até fora do Espírito Santo por vídeos em que aparece comendo marmita ou pintando bancos de praça.
O Republicanos surgiu como braço da Igreja Universal do Reino de Deus e foi ocupando espaços até se tornar um dos mais relevantes do Centrão na Câmara dos Deputados.
No Espírito Santo, é presidido pelo ex-secretário de Governo da Prefeitura de Vitória Roberto Carneiro, que também já foi secretário de Esportes, no último governo Paulo Hartung (sem partido).
Carneiro é próximo do deputado federal Amaro Neto (Republicanos), do qual foi vice, aliás, quando disputaram a Prefeitura de Vitória, em 2016. Já o secretário-geral do partido no estado é o vereador de Vila Velha Devanir Ferreira, pastor da Universal.
Meneguelli não é historicamente próximo a nenhum deles. E foi até alvo de críticas públicas por parte de Devanir quando o ex-prefeito concedeu uma entrevista dizendo "não ter nada de conservador".
Apesar disso, o ex-prefeito mantinha uma relação cordial com a cúpula local da legenda. Partiu da direção nacional, de acordo com ele mesmo, o pedido para a retirada da candidatura ao Senado. Tudo para favorecer outro candidato, o ex-senador Magno Malta (PL), aliado do presidente da República, Jair Bolsonaro (PL).
Se Meneguelli não tem uma forte ligação com o partido local, imagine com a direção nacional. E não foi a primeira vítima.
Em 2018, o próprio Amaro era pré-candidato a senador. O plano foi abortado por ordem do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, que queria priorizar a eleição de deputados federais.
Já em relação a Ramalho, ele tem poucos meses de filiação ao Podemos, que é a primeira incursão dele na política partidária.
Quando militar da ativa ele não podia ser filiado. Agora, está na reserva da Polícia Militar. A escolha pela legenda se deu aos 45 do segundo tempo, no prazo final, início de abril.
Na ocasião, ele recebeu convites de outras legendas também, como o União Brasil, do deputado federal Felipe Rigoni. Escolheu o Podemos após ouvir do presidente estadual do partido, Gilson Daniel, que tinha a garantia de disputar o Senado.
O Podemos é um partido da base do governador Renato Casagrande (PSB), ao contrário do União. E Ramalho é ex-secretário de Segurança Pública do governo socialista.
Entre os aliados de Casagrande, no entanto, havia outros postulantes ao Senado, como o deputado federal Da Vitória (PP) e a senadora Rose de Freitas (MDB), que ganhou o endosso do chefe do Palácio Anchieta e da coligação que se formou em torno dele.
O Podemos somente poderia lançar Ramalho ao Senado fora da coligação, de forma avulsa, mas a Executiva estadual do partido, capitaneada por Gilson Daniel, entendeu que não seria bom negócio e que o melhor é priorizar a eleição de deputados federais.
Ramalho também já foi secretário de Gilson Daniel, na época em que este foi prefeito de Viana. Comandou a pasta de Defesa Social.
Marcelo Santos e Coronel Ramalho
O deputado estadual Marcelo Santos e o coronel Alexandre Ramalho durante convenção estadual do Podemos Crédito: Letícia Gonçalves
Mas, à exceção do vínculo de trabalho, o militar não tem uma relação enraizada com o Podemos.
Coube ao presidente estadual do partido, em uma conversa com Ramalho na última quarta-feira (3), elencar os motivos de a candidatura ao Senado ser barrada.
Em entrevista à coluna, o coronel disse que tudo o que foi listado poderia ter sido contornado, se a sigla quisesse mesmo garantir a ele o espaço para concorrer.
Também afirmou que ainda não sabe se vai disputar uma vaga na Câmara dos Deputados ou desistir da política partidária. E nem garantiu que vai subir no palanque de Casagrande, abrindo as portas para um afastamento em relação ao socialista.
No Instagram, horas após ser rifado, o coronel postou que "política não é para amadores". E é isso mesmo.
Quem não tem um partido para chamar de seu ou laços fortes com os caciques das legendas, está sempre à mercê da máquina de moer gente.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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