Os recifes de coral estão adoecendo em escala planetária. Estimativas recentes indicam que cerca de 80% dos corais do mundo já apresentam algum nível de branqueamento, um processo que pode levar à morte desses organismos. O dado é alarmante não apenas pelo número, mas pelo que ele representa: os corais sustentam aproximadamente 25% de toda a vida marinha conhecida, mesmo ocupando uma fração mínima do fundo dos oceanos. Quando eles entram em colapso, o impacto se espalha por toda a cadeia da vida no mar e chega às cidades costeiras, à economia e à segurança alimentar.
Apesar de muita gente ainda associar corais a plantas ou pedras coloridas, eles são animais marinhos, pertencentes ao grupo dos cnidários. Vivem em colônias e constroem, ao longo de décadas ou séculos, estruturas calcárias que formam os recifes. Sua sobrevivência depende de uma relação simbiótica delicada com microalgas, responsáveis pela coloração vibrante e por grande parte da energia que mantém o coral vivo. Quando o ambiente se torna hostil, especialmente com o aumento da temperatura da água, essa parceria se rompe. O coral perde a cor, enfraquece e, se o estresse persistir, morre.
A importância ecológica dos corais é imensa. Eles funcionam como verdadeiros berçários do oceano, oferecendo abrigo, alimento e proteção para milhares de espécies de peixes, crustáceos e outros organismos marinhos. Também atuam como barreiras naturais contra a força das ondas, reduzindo a erosão costeira e protegendo comunidades litorâneas. Além disso, sustentam atividades econômicas fundamentais, como a pesca artesanal e o turismo, pilares da chamada economia azul. Perder os corais significa comprometer serviços ambientais que o dinheiro não consegue substituir.
O branqueamento em massa observado atualmente não é fruto do acaso. Ele está diretamente ligado às mudanças climáticas, com ondas de calor marinhas cada vez mais frequentes e intensas, acidez das águas dos oceanos. Soma-se a isso a poluição por esgoto não tratado, o excesso de nutrientes, metais pesados, plásticos, a sedimentação causada por obras mal planejadas, a pesca predatória e a acidificação dos oceanos, resultado do excesso de dióxido de carbono na atmosfera. É uma combinação de pressões que ultrapassa o limite de resistência desses organismos extremamente sensíveis.
As consequências desse processo já são visíveis e tendem a se agravar. A perda de biodiversidade marinha avança, a produtividade pesqueira cai, o turismo sofre e as áreas costeiras ficam mais vulneráveis à erosão e a eventos extremos. O colapso dos recifes não é um problema do futuro distante; é uma crise ambiental em curso, com reflexos sociais e econômicos imediatos.
E o Espírito Santo está longe de ser um espectador externo dessa história. Nosso litoral abriga bancos de corais e recifes associados a algas calcárias, com registros importantes em áreas como Guarapari, Anchieta e, de forma ainda mais expressiva, no arquipélago de Trindade e Martim Vaz, um dos conjuntos mais relevantes do Atlântico Sul.
Esses ambientes já sofrem com o lançamento de esgoto, o aumento da sedimentação, a pressão urbana e o aquecimento das águas. Ignorar essa realidade é colocar em risco um patrimônio natural estratégico do Estado.
Proteger os corais capixabas passa, necessariamente, por decisões concretas. Universalizar o saneamento básico é uma das medidas mais eficazes e urgentes. Planejar e fiscalizar a ocupação costeira, reduzir as emissões de carbono, fortalecer áreas marinhas protegidas, investir em pesquisa científica e monitoramento ambiental e ampliar a educação ambiental são caminhos possíveis e necessários. Não se trata apenas de conservar paisagens subaquáticas, mas de garantir resiliência ecológica, segurança econômica e adaptação às mudanças climáticas.
Salvar os corais não é uma pauta ambiental isolada ou distante da vida cotidiana. É uma questão de saúde pública, de desenvolvimento sustentável e de responsabilidade com as próximas gerações. O oceano está enviando sinais claros de esgotamento. A pergunta que fica é se vamos continuar tratando esse alerta como ruído de fundo ou se teremos coragem de agir enquanto ainda há tempo
Para aprofundar a leitura
- "A Sexta Extinção" — Elizabeth Kolbert
- "O Futuro dos Oceanos" — Callum Roberts
- "O Amanhã Não Está à Venda" — Ailton Krenak