As cidades do Espírito Santo estão ficando mais quentes e isso não é sensação, é realidade climática. O avanço desordenado do concreto, do asfalto e dos muros de arrimo, aliado à supressão da vegetação, está transformando nossos centros urbanos em verdadeiros fornos a céu aberto.
Esse processo já não se restringe às grandes cidades: o asfaltamento intenso, os telhados metálicos, as fachadas de vidro e a impermeabilização do solo já chegaram com força ao interior do Estado, ampliando drasticamente o efeito das ilhas de calor.
Telhados de metal e fibrocimento, fachadas espelhadas e grandes superfícies asfaltadas absorvem e refletem calor ao longo do dia, elevando as temperaturas principalmente no período noturno, quando a cidade deveria resfriar.
O resultado aparece no cotidiano da população: calor extremo, desconforto térmico, aumento de doenças respiratórias e cardiovasculares, desidratação, fadiga térmica e sobrecarga do sistema de saúde. Isso deixa claro que não estamos diante apenas de um problema urbano ou estético, mas de uma grave questão de saúde pública.
O mais preocupante é que muitas cidades capixabas ainda não possuem planos estruturados de mudanças climáticas. Falta prioridade, falta conhecimento técnico e, sobretudo, falta visão estratégica por parte de gestores municipais.
Continuar reproduzindo modelos urbanos baseados em asfalto, vidro e metal, sem compensação ambiental, é aprofundar o problema. As mudanças climáticas vieram para ficar, e insistir nesse modelo é escolher conviver com cidades cada vez mais quentes, insalubres e desiguais.
A arborização urbana precisa ser tratada como o que realmente é: política pública permanente, integrada aos planos de governo e executada todos os anos. Árvores reduzem ilhas de calor, podem diminuir a temperatura urbana entre 8 °C e 10 °C, aumentam a umidade do ar, melhoram a drenagem urbana, reduzem enchentes e ainda contribuem para a saúde física e mental da população. Em contraste com o concreto e o asfalto, a árvore regula o microclima e salva vidas.
Em tempos de emergência climática, descarbonizar é fundamental, mas adaptar as cidades é igualmente urgente. Isso significa repensar materiais urbanos, incentivar telhados verdes e refletivos adequados, limitar superfícies impermeáveis e, sobretudo, colocar a natureza no centro do planejamento urbano, por meio de soluções baseadas na natureza. O futuro das cidades será verde ou será termicamente insustentável.
Mais árvores não são paisagismo. São adaptação climática, saúde pública e sobrevivência urbana.
Para quem quer se aprofundar
- A Cidade Sustentável – Richard Rogers
- O Clima em Transe – Carlos Nobre
- Cidades para Pessoas – Jan Gehl