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Árvores

Leucenas e acácias: o verde que virou problema nas encostas da Grande Vitória

Uma solução rápida do passado se transformou em um passivo ambiental atual, que ameaça a resiliência dos ecossistemas urbanos e periurbanos. E aí vem a pergunta inevitável: o que podemos e devemos fazer agora?

Publicado em 30 de Junho de 2025 às 05:01

Públicado em 

30 jun 2025 às 05:01
Marco Bravo

Colunista

Marco Bravo

perito.marcobravo@gmail.com

Durante muitos anos, especialmente entre os anos 1980 e 1990, plantar árvores em encostas urbanas era visto como uma estratégia urgente e necessária. Era o tempo em que as cidades cresciam rapidamente, muitas vezes sem infraestrutura, e as chuvas vinham como lembrete de que o solo exposto e desmatado cobraria seu preço.
Para resolver o problema de deslizamentos, erosões e assoreamentos, técnicos e gestores públicos recorreram a soluções rápidas e eficazes: entre elas, o uso de espécies exóticas de crescimento acelerado, como as leucenas (Leucaena leucocephala) e as acácias (Acacia mangium e Acacia auriculiformis).
Na teoria e até mesmo na prática por um tempo funcionou. As encostas da Grande Vitória, antes áridas e instáveis, ganharam uma cobertura verde que ajudou a estabilizar o solo. Com raízes vigorosas e adaptação a solos pobres, essas plantas cumpriram um papel estratégico: proteger a cidade de novos desastres. Mas o que era para ser temporário e controlado se tornou, aos poucos, um novo desafio ambiental.
A proposta inicial previa, em muitos casos, que essas espécies fossem substituídas por nativas da Mata Atlântica assim que a estabilização fosse alcançada. O problema é que essa segunda fase quase nunca aconteceu. O tempo passou, a urbanização avançou, os orçamentos mudaram de prioridade e a leucena ficou. E cresceu. E invadiu.
Hoje, já é possível observar matas invadidas por essas espécies, que se espalham de forma agressivas graças à alta produção de sementes e à facilidade de dispersão por vento, água e até por aves. Áreas onde antes havia regeneração natural da floresta nativa agora estão tomadas por monoculturas espontâneas de leucenas ou acácias, que empobrecem a biodiversidade local, alteram o microclima, e até dificultam o desenvolvimento de outras plantas. Além disso, seu sistema radicular e a química de suas folhas podem modificar a composição do solo, reduzindo ainda mais a chance de retorno da vegetação original.
Na prática, isso significa que uma solução rápida do passado se transformou em um passivo ambiental atual, que ameaça a resiliência dos ecossistemas urbanos e periurbanos. E aí vem a pergunta inevitável: o que podemos e devemos fazer agora?
A resposta não é simples, mas está em construção. Em algumas regiões do Brasil e até aqui no Espírito Santo, já se discute a substituição progressiva dessas espécies por árvores nativas. Não se trata de arrancar tudo de uma vez, o que causaria instabilidade e novos riscos, mas sim de pensar uma transição inteligente, com planejamento técnico e ambiental. Plantar espécies da Mata Atlântica que consigam competir com as invasoras, oferecer sombra, suprimir a regeneração indesejada. Um processo que leva tempo, mas é possível.
Em 2020, Parque Barão de Monjardim recebe trabalho de manejo de árvores invasoras
Em 2020, Parque Barão de Monjardim em Vitória recebeu trabalho de manejo de árvores invasoras Crédito: André Sobral/PMV/Arquivo 2020
Você já viu alguma dessas espécies por aí? Leucenas costumam ter folhas finas, delicadas, e crescem rápido em qualquer canto. Já as acácias têm tronco liso e folhas maiores. Elas estão em praças, margens de córregos, encostas, avenidas. E talvez você já tenha notado que, ao redor delas, quase nada cresce. Esse é o efeito da dominância biológica, quando uma espécie toma conta e não deixa espaço para as outras – como um vizinho barulhento que ocupa todo o quintal e não deixa ninguém mais se aproximar.
O Espírito Santo já conta com instrumentos importantes para lidar com esse tipo de desafio. Programas como o Reflorestar, o uso de pagamentos por serviços ambientais e a busca por créditos de carbono são alternativas que podem tornar financeiramente viável essa recuperação ecológica. A substituição das invasoras por nativas pode, inclusive, entrar no planejamento dos municípios como uma ação de adaptação às mudanças climáticas, gerando benefícios ambientais e sociais a longo prazo.
Mas isso tudo depende de algo essencial: vontade política e participação popular. É fundamental que a sociedade entenda que arborização não é apenas plantar por plantar. Precisamos garantir qualidade ecológica, não apenas quantidade de árvores. Leucenas e acácias foram, sim, importantes num primeiro momento. Mas agora, o que queremos é a floresta de volta. E com ela, toda a biodiversidade que perdemos ao longo do caminho.
E você, já reparou em alguma encosta da sua cidade tomada por essas espécies? Acha que devemos priorizar a substituição por plantas nativas da Mata Atlântica? A sua opinião importa – e pode ajudar a transformar esse verde invasor num verde restaurado.

Marco Bravo

Biologo, mestre em Gestao Ambiental, comentarista de Meio Ambiente e Sustentabilidade da radio CBN Vitoria

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