Os povos originários habitam o território brasileiro há cerca de 14 mil anos, mantendo com a natureza uma relação de respeito, reciprocidade e equilíbrio. Onde há povos ancestrais, há floresta preservada e isso não é coincidência. Terras indígenas são hoje as áreas mais bem conservadas do país, funcionando como verdadeiros escudos climáticos que protegem a biodiversidade, regulam a chuva, resfriam o ambiente e capturam carbono. Em um mundo que enfrenta aquecimento acelerado, esses territórios são essenciais para barrar o avanço das mudanças climáticas.
A cultura indígena percebe a floresta como um ser vivo, dotado de memória, espírito e valor próprio. É a partir dessa visão que surge um imenso repertório de saberes: técnicas de manejo sustentável, uso cuidadoso do solo, proteção de nascentes e um conhecimento farmacológico que impressiona a ciência moderna.
Muitas plantas utilizadas pela indústria farmacêutica como analgésicos, anti-inflamatórios, cicatrizantes e compostos bioativos foram identificadas graças às práticas tradicionais dos povos originários. Cada parte da floresta guarda potencial medicinal que esses povos já conheciam muito antes de ser estudado em laboratórios.
Entretanto, justamente aqueles que preservam o clima e mantêm viva a maior farmácia natural do mundo estão sob crescente ameaça. Garimpo ilegal, desmatamento, conflitos fundiários e violência contra lideranças indígenas fragilizam territórios que deveriam ser protegidos como patrimônio nacional e global. Quando um território indígena é invadido, não se perde apenas cultura, perde-se floresta, sequestro de carbono, regulação climática, água e vida.
O papel desses povos no enfrentamento das mudanças climáticas é incontestável. Estudos internacionais confirmam que terras indígenas armazenam mais carbono, sofrem menos desmatamento e apresentam maior resiliência ecológica do que qualquer outro tipo de área protegida. Portanto, defender os povos originários significa defender o clima do planeta, a estabilidade hídrica, a biodiversidade e o futuro das próximas gerações.
É fundamental reconhecer que não existe preservação ambiental sem o protagonismo dos povos originários. Onde esses povos permanecem, a floresta se mantém viva, protegida e resistente. E onde a floresta permanece em pé, ergue-se um poderoso escudo contra as mudanças climáticas capaz de regular o clima, armazenar carbono, garantir água e sustentar a vida. Proteger os povos originários é proteger o clima; proteger o clima é preservar o futuro de todos.
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