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Duas praias

A história se repete na Curva da Jurema

Mudanças de nomes, políticas de urbanização segregadora, retirada da praia do povo…
Marcus Vinicius Sant'Ana

Publicado em 

11 dez 2025 às 04:50

Publicado em 11 de Dezembro de 2025 às 07:50

Há quem diga que a história é cíclica. Mas o que seria isso? Que os acontecimentos tendem a acontecer novamente com o passar do tempo, mesmo que não exatamente da mesma forma.
Não é o objetivo desta coluna discutir correntes e teorias historiográficas, mas, se pegarmos uma parcela da sociedade e analisarmos sua trajetória histórica, fica quase impossível não acreditar nas circularidades da cronologia.
Vejam só: deem uma olhada no que está acontecendo na região da Curva da Jurema nos últimos anos…
Agora vamos dar um salto na história e partir para a Vitória do século 19. Em uma cidade que praticamente se restringia ao que hoje é conhecido como Centro Histórico. A parte alta da cidade era tida como o epicentro urbano, enquanto a parte baixa era marginalizada e, consequentemente, moradia de negros e pobres. Moravam em casebres ou barracos de baixo custo, em conglomerados localizados onde hoje estão parte da Praça Costa Pereira, a Rua Treze de Maio e a Rua do Rosário; divertiam-se, após intensos dias de trabalho, no botequim do Zé das Vacas, localizado onde hoje está o antigo prédio do Álvares Cabral; e exerciam sua fé na Igreja do Rosário dos Pretos e na de Nossa Senhora da Conceição da Prainha e é a partir desta última que será possível entender a prosa de hoje.
A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha ficava localizada onde, atualmente, está o Triplex Vermelho e tinha como maioria de seus devotos os pescadores da região que, justificando o nome da igreja, paravam seus barcos em uma pequena praia que se formava onde hoje está a praça Costa Pereira. Toda essa região, tendo a praia como conexão do homem com a natureza e como fonte de subsistência e lazer, se configurou como um apêndice da cidade, sendo lembrada apenas para ser alvo de batidas policiais ou para ser referida como um local a ser evitado.
A coisa mudou drasticamente na segunda metade do século 19. Com o dinheiro do café engordando os cofres públicos, a elite capixaba passou a se incomodar com sua arcaica capital formada por igrejas, ruas estreitas e casebres coloniais e decidiu que era hora de se “europeizar”.
Como já naquela época “elite” e “líderes políticos” eram sinônimos, políticas públicas de uma suposta modernização da cidade foram elaboradas e, obviamente, no caminho do progresso, pretos e pobres não poderiam ficar. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha foi demolida em 1896 porque, segundo a interpretação da época, não tinha cabimento uma pequena capela ficar ao lado de um teatro, símbolo da modernização e evolução cultural - o Melpômene, primeiro teatro da cidade, havia acabado de ser construído bem ao seu lado; a pequena praia foi totalmente aterrada, dando lugar à uma suntuosa praça em estilo europeu que, posteriormente, viemos a conhecer como Costa Pereira; a Rua do Piolho, mesmo que um lugar criador de identidade e pertencimento, teve seu nome alterado para Treze de Maio em alusão à quantidade de negros que ali existiam, já que nomes populares e que remeteram à essa identidade periférica poluíam os novos ares europeus que estavam ventando.
O Theatro Melpômene foi o 1º teatro à italiana de Vitória, inaugurado em 1896 na praça Costa Pereira, no Centro de Vitória. O teatro foi demolido em 1925, um ano após a interdição do local em virtude de um princípio de incêndio.
O Theatro Melpômene foi o 1º teatro à italiana de Vitória, inaugurado em 1896 na praça Costa Pereira, no Centro de Vitória. O teatro foi demolido em 1925, um ano após a interdição do local em virtude de um princípio de incêndio. Crédito: Arquivo Público do Espírito Santo
Esses negros, assim como os pescadores e demais moradores do entorno, tiveram que caçar um outro canto para chamar de seu, pois não estavam inclusos naquela suposta evolução da cidade.
Retornando à nossa — já não sei se tão — boa e velha Curva da Jurema, ela foi uma praia formada na década de 1970 a partir de sucessivos aterros, não à toa que, inicialmente, assim foi chamada: “Praia do Aterro”. Como era um local afastado, terreiros de Jucutuquara e Fradinhos sentiram-se confortáveis para fazerem lá seus despachos e giras e cultuarem a Cabocla Jurema, entidade do catimbó e também venerada na umbanda. Tal informação vem do pesquisador da cidade Willis de Faria que, além do embasamento de suas pesquisas, tem propriedade no assunto por ter trabalhado em um órgão que atuava diretamente na Curva da Jurema.
Uma vez formada e batizada, a Curva da Jurema virou a praia do povão. Foi onde a cidade loteou para ser ocupada pelo povo de bairros periféricos, reflexo disso eram as alterações das linhas de ônibus de bairros como Santo Antônio e São Pedro que, aos finais de semana, estendiam seus trajetos até o entorno da praia. Era o local da lambada, das dignas “farofadas” na areia, dos sambas repentinos, dos churrascos improvisados, enfim, era o gueto do entretenimento em uma cidade em que a segregação velada fazia [e faz] parte do cotidiano.
Praia da Curva da Jurema, em Vitória, lotada em domingo de sol e temperaturas altas
Praia da Curva da Jurema, em Vitória, lotada em domingo de sol e temperaturas altas Crédito: Fernando Madeira
Toda aura de território do povão e balneário dos periféricos começou a ruir recentemente. De uns anos para cá, tentativas de alteração do ambiente popular que há décadas faz morada no local começaram a acontecer. Desde mudanças nas licitações de ocupação dos quiosques às propostas de banimento de ambulantes, proibição de caixas de som e até sugestão de mudança de nome para “Jurema Internacional”. Sem falar no movimento separatista que culminou no surgimento da tal Guarderia.
Ações embasadas por uma suposta evolução urbana que tem como principal objetivo a gentrificação e constante afastamento daqueles que são colocados como indesejáveis a uma determinada concepção de cidade.
Mudanças de nomes, políticas de urbanização segregadora, retirada da praia do povo… entre a Prainha e a Jurema e analisando a história sob a ótica preta e pobre, fica difícil não se tornar um ferrenho defensor da história cíclica.
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