Escrevo em uma quarta-feira, 14 de janeiro de 2026.
A cidade que vive intensamente o samba e o carnaval sofre um abrupto esfriamento na efervescência causada pela aproximação dos desfiles.
Os que se deixam seduzir pelos encantos da noite com toda certeza a conhecem e, em algum momento boêmio da vida terrena, necessitou de seu acolhimento. Aos que não tiveram essa sorte, explico: Cleir era uma cozinheira de mão cheia que, na década de 1990, com seu marido, abriu um bar/restaurante que logo caiu nas graças das comunidades do entorno e, principalmente, daqueles que compartilhavam com ela duas paixões: o samba e o carnaval.
Tendo a moqueca capixaba como iguaria de frente, desafiava o espaço e o tempo na Volta do Rabayolli, Vitória. Desafiava o espaço porque seus pratos — uns dos melhores da cidade no ramo dos pescados — eram feitos em uma cozinha em que mal cabia o fogão dentro.
Desafiava o tempo porque, driblando o fantasma do conservadorismo que impõe o marasmo das ruas após às 23h, varava a madrugada oferecendo moquecas frescas até altas horas, algo impossível de se encontrar em outros cantos de Vitória.
Nos últimos anos, escreveu um novo capítulo em sua história. Mudou-se para outro ponto, próximo, maior e mais confortável para seus clientes, mas a essência continuou a mesma. Assim como a baixada da Escadaria Major Alfredo Pedro Rabayolli, onde ficavam as mesas do seu antigo ponto, as dependências do novo Bar da Cleir seguiram como verdadeiros ateliês de memórias, principalmente para os sambistas, que faziam de lá uma extensão das rodas de samba e ensaios.
Ali eu vi Almirante Polha, Tia Lambreta e a eterna baiana Tia Élida, baluartes que já se foram e hoje habitam a Avenida da Saudade; proseei com nomes que, daqui a uns anos, serão colocados na mesma prateleira dos sambistas imortais: Mestre Glê, Andressa Leal, Danilo Cezar e Kleber Simpatia.
Um lugar que se despiu das frias vestes de um comércio e se materializou em um quilombo afetivo para aqueles que têm o samba como elemento norteador de suas vidas.
Afirmo, em conclusão que só a reflexão post mortem é capaz de possibilitar, que não seria exagero dizer que o Bar da Cleir se configurou como a versão contemporânea das casas das tias baianas ou dos zungus, que na virada do século XIX para o XX, tendo uma mulher negra à frente, eram os locais que ofereciam abrigo, comida, afeto e conforto aos sambistas.
É por isso que, tanto para os clientes de ocasiões esporádicas quanto para aqueles que tinham um laço afetivo com a Cleir, a dor é grande e as portas arreadas refletem um vazio que nem as mais autênticas expressões são capazes de explicar.
Ficará, obviamente, a saudade eterna, mas, felizmente, Cleir habitava um universo que tem a memória como um importante pilar de existência.
Nós, que batucamos, dançamos e fazemos arte com as dores da vida, entendemos a morte como um mero detalhe, e a essência da vida segue presente enquanto houver lembrança. Para nós, vivo está aquele que deixou um legado potente e que, por essa razão, é constantemente referenciado.
Cleir, portanto, seguirá viva.
Viva na memória daqueles que seguirão lembrando de seu nome e da sua arte como sinônimos de samba, aconchego, cultura e amor.
Eternamente Cleir!