Confesso que o texto destinado à nossa prosa desta semana não era este. Com um escrito falando sobre as minúcias dos festejos carnavalescos já finalizado e pronto para enviar, algo aconteceu, aos 45 do segundo tempo – ou melhor, na disputa de pênaltis –, que me fez engavetar a louvação ao Deus Momo e cumprir meu papel de ferrenho defensor do povo capixaba e convicto exaltador de seus feitos: a vitória da Desportiva sobre o Sampaio Corrêa do Rio de Janeiro pela primeira fase da Copa do Brasil.
Adianto que, como alvianil assumido, meu capixabismo não é latente ao ponto de torcer para o sucesso de qualquer time capixaba. Jamais vou “torcer para que um time capixaba chegue à elite do futebol”, como dizem os carioxabas. Torço, fervorosamente, para que o meu Vitória chegue à elite do futebol e, assim sendo, o cenário ficaria ainda melhor se tivermos os rivais ao nosso lado.
Friso isso sempre que posso porque, apesar de parecer um fanatismo exacerbado, para os que vivem de fato o futebol capixaba, a manutenção da rivalidade é algo primordial para manter a identidade viva. A partir do momento que abdicarmos dela, a rivalidade, para torcermos para time A ou B em prol apenas da façanha de ter um capixaba na elite, abdicaremos também de toda história, particularidades, simbologias e pertencimento que os clubes tradicionais emanam.
Grosso modo: que o meu triunfe! Acontecendo, que os demais capixabas também cheguem lá e coloquemos, juntos, o nosso Estado na rota do futebol brasileiro. Se o meu estiver de fora, que ostracismo abrace todos os demais também – e digo isso com uma tranquilidade absurda, pois tenho certeza de que os autênticos torcedores capixabas partilham de opinião semelhante.
Rival, sim. Indiferente, jamais! A classificação da Desportiva é digna de todos os holofotes possíveis e é um suspiro danado para aqueles que emanam por melhores ares no nosso futebol e, como dito, para quem se propõe a escrever sobre a história e a cultura capixabas, torna-se assunto obrigatório por aqui.
Como minha função é vasculhar o mar da história, ao se falar de futebol capixaba e Copa do Brasil, é obrigatório citar a campanha do Linhares na edição de 1994. Em uma trajetória que estarreceu até mesmo os linharenses mais confiantes, a equipe do norte capixaba alcançou as semifinais da competição, deixando para trás durante o caminho o grande Fluminense.
Em edições seguintes, os capixabas não deram continuidade à façanha do Linhares. Regras como a do “gol fora de casa” e a dos “dois gols de diferença para visitantes” foram cruéis com os locais, resultando em eliminações traumáticas.
De uns anos para cá, com mudanças no regulamento do torneio e certa melhora na organização dos clubes, algumas vitórias foram marcantes: o Serra superou o Remo, do Pará, em 2019; o Vitória derrotou o CSA, de Alagoas, em 2020 e o Rio Branco deixou pelo caminho o Sampaio Corrêa, do Maranhão, em 2021. Todos foram desclassificados na etapa seguinte, mas para um futebol que já estava praticamente conformado com eliminações na primeira fase da competição, tais vitórias foram históricas.
A Desportiva, após a noite desta quarta-feira (17), entrou para esse hall e completou a lista dos grandes da metrópole com vitórias heroicas na Copa do Brasil. Foi até Saquarema, no Rio de Janeiro. Ignorou a conturbada campanha na primeira fase do Capixabão e fez valer a tradição que o grená da sua camisa emana. Após um empate em 1 a 1 no tempo normal, desbancou o Sampaio Corrêa, time da primeira divisão carioca, que acostumou-se a enfrentar Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo, mas que não foi páreo para a força da Locomotiva.
Paira entre muitos pelo Brasil a imbecil dúvida se o Espírito Santo tem futebol. Em Saquarema, acredito que ela foi sanada.
Parabéns aos grenás.