Foi com muita tristeza e pouco espanto que tomei ciência de que em Cariacica, na rede municipal de ensino, existiram casos de crianças que chegaram nas escolas com a capa do caderno retirada, ou rasurada, por pais ou responsáveis.
Muita tristeza por ser mais um exemplo de intolerância e ataque à nossa cultura. Pouco espanto, pelo mesmo motivo. Trata-se de mais um episódio que compõe uma crescente no número de casos de ataques às manifestações culturais e de origens africanas. Na ocasião, a razão é que o caderno fornecido pela prefeitura tem estampado em sua capa o João Bananeira, personagem símbolo da cultura cariaciquense.
A base desse movimento intolerante é a desinformação. Combate-se divulgando, o máximo possível, a história e a importância social dos nossos elementos culturais. Assim sendo, vamos lá.
As principais fontes sobre a história do João Bananeira são os relatos de moradores de Cariacica, mais precisamente, da região de Roda D’água, que reproduzem os relatos passados por gerações passadas. Segundo elas, a história do João Bananeira remonta os tempos de escravidão e as privações impostas às pessoas negras durante ele. Em uma sociedade majoritariamente católica, as principais festividades eram as destinadas aos santos e, no Espírito Santo, as maiores festas eram as da padroeira Nossa Senhora da Penha.
É nesse contexto que escravizados das fazendas localizadas em Cariacica, impedidos de participarem das festas, bolaram uma estratégia para terem um mínimo de felicidade e entretenimento em suas vidas inundadas pelo sofrimento. Munidos de panos, folhas de bananeiras - daí o nome - e uma máscara, cobriam todo o corpo para esconderem suas identidades e cor da pele. Infiltravam-se nos cortejos, fazendo danças e brincadeiras com os presentes, usando do divertimento como mais um aliado no disfarce. Logo o personagem caiu no gosto do público e se tornou em um das principais atrações dos cortejos rumo à Penha.
Com a abolição jurídica, o simulacro não foi mais necessário na teoria, mas se manteve na prática, por orgulho e respeito à história do povo daquela terra. O João Bananeira, além de símbolo de resistência, passou também a representar a cultura e a identidade do povo de Cariacica, o que explica o golaço da prefeitura de escolhê-lo para estampar um objeto de tanta importância como o caderno escolar, já que é nele que as crianças tecem uma das maiores preciosidades da aventura terrena: os primeiros aprendizados.
A coragem daqueles negros, que tiveram que se disfarçar para buscarem aquilo deveria ser acessível a todo ser humano e em qualquer recorte histórico, a felicidade, resultou em uma festa única, o Carnaval de Congo de Máscaras de Roda D’água, que tem elementos e identidades próprias e dá a Roda D’água e ao município de Cariacica o privilégio de ter uma manifestação mariana diferente de qualquer outro lugar do mundo!
É todo esse universo riquíssimo de história, cultura e identidade e completamente inócuo na formação escolar e pessoal de um indivíduo que alguns responsáveis por crianças da rede municipal de ensino estão agressivamente vetando de conhecer.
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Se engana quem pensa que para por aí. Bandas de congo estão sendo convidadas para se apresentarem em locais que pedem para não levarem estandarte com santos e nem cantarem músicas de cunho religioso. Fora da Grande Vitória, manifestações como jongo e caxambu estão sendo impedidas de se apresentarem em escolas, por julgarem se tratar de “coisa do demônio”. Um movimento nefasto, complexo, extremamente prejudicial na nossa formação social e que tem como principais representantes membros do poder legislativo.
Como sempre foi em nossa história, a chicotada vira batuque e o lamento vira canto. Se o João Bananeira e todo universo congueiro está sendo silenciado por aí, é pelo seu próprio povo que ele ganhará o mundo. Será o enredo da Independentes de Boa Vista para o carnaval de 2026, escola de samba também de Cariacica e atual campeã do carnaval capixaba.
Fiquei sabendo, também, que o Godô, um dos principais representantes do João Bananeira, está com a agenda lotadíssima, repleta de convites para apresentações em locais não contaminados pela intolerância.
E é assim que seguimos. Como nossos antepassados, combatemos a tentativa de escravização de corpos e mentes com muita arte, cultura e propagação de conhecimento, enquanto construímos uma das mais belas coletâneas de culturas populares do país!