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História

200 anos depois, o Brasil precisa de independência e vida

Que neste 7 de setembro os covardes que atentam contra a democracia e a república se recolham às suas vexatórias insignificâncias, e o povo brasileiro inicie uma ampla frente de reconstrução, união e pacificação do Brasil

Publicado em 07 de Setembro de 2022 às 00:01

Públicado em 

07 set 2022 às 00:01
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

pabloslira@gmail.com

O famoso quadro do pintor Pedro Américo intitulado “Independência ou Morte” ilustra uma visão extremamente romantizada daquele dia 7 de setembro de 1822. O quadro foi uma encomenda da família real ao pintor. Isso explica a abordagem poética da cena histórica retratada na obra que foi criada no final da década de 1880.
A maioria dos brasileiros tem contato com o quadro nos livros de história. Com exceção de Dom Pedro com sua espada bradando “Independência ou Morte”, tudo na famosa pintura é criação do artista que, diga-se de passagem, usou e abusou da licença poética. Ao invés de uma cena épica de batalha, provavelmente as mencionadas palavras foram ditas por D. Pedro em um momento bem menos esplendoroso.
A obra de arte apresenta de forma magnificente uma tropa em posição de combate, com uniformes de gala e seus cavalos agitados ao redor de D. Pedro e seu grupo, que se encontra posicionado em uma parte alta às margens do rio Ipiranga. Evidências históricas dão conta de que a comitiva do imperador era bem modesta, composta por pouco mais de dez homens que formavam a guarda de honra. Após dias em viagem, subindo serras em meio a lama e mato, é muito provável que tais homens não estivessem com uniformes de gala. Caso estivessem, não estariam tão arrumadinhos como no quadro.
É interessante notar o ar de surpresa dos trabalhadores rurais que também “ouviram do Ipiranga” D. Pedro com seu “brado retumbante”. Muitos elementos do quadro estão retratados no hino nacional.
Pedro Américo situou a cena em frente a uma casinha típica do meio rural. Essa casa existia ao lado de onde se construiu o Museu Paulista. O documento histórico mais antigo sobre essa casa é datado da década de 1880, período de construção do museu. Ironicamente, a casinha não estava lá no dia do grito. Hoje ela se encontra no mesmo lugar, porém passou por uma reforma para se parecer mais com a casinha do quadro.
O pintor teve dificuldade de romantizar o rio Ipiranga, que na verdade se caracterizava como um córrego com “margens plácidas” e centímetros de profundidade. Por isso, o rio ficou relegado ao canto inferior direito da tela pintada. Atualmente, o “rio” se encontra mais largo não por uma maior vazão de água, mas sim pelo volume acrescido pelo esgoto da cidade que cresceu de forma desordenada.
A história nos mostra que as cortes portuguesas intensificaram suas investidas em “recolonizar” o Brasil naquele período. Em 9 de janeiro de 1822, a intolerância de Portugal em relação aos avanços de liberdade do país culminou no “Dia do Fico”, quando D. Pedro, descumprindo decretos portugueses que exigiam o retorno imediato do príncipe regente para Lisboa, teria dito a famosa frase: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digo ao povo que fico”.
Em meio à escalada da intransigência por parte dos portugueses, Maria Leopoldina, convencida de que a ruptura entre Brasil e Portugal deveria acontecer o mais rápido possível, assinou o decreto de independência e despachou em caráter de urgência para Dom Pedro, que se encontrava em viagem no interior de São Paulo. O príncipe regente recebeu o citado decreto no dia 7 de setembro, “às margens plácidas” do córrego Ipiranga.
As análises artística e histórica desenvolvidas neste artigo abrem horizontes para uma importante reflexão sobre a contemporaneidade.
Duzentos anos depois, o país vive um dos piores momentos de sua história desde a redemocratização, com severos problemas sociais, econômicos e ambientais. Além disso, disseminadores de bravatas, ódio e intolerância tentam dividir o Brasil a todo custo de forma suja e sorrateira.
O Brasil precisa de uma virada de página e um renovador “brado retumbante”, dessa vez proferido pelo povo, de “Independência e Vida”. Independência e liberdade da cultura de ódio que se instalou em algumas instâncias do poder nos últimos anos. Vida em contraponto ao culto à morte e ao genocídio difundido por mentes autoritárias e inconsequentes.
Que nesse 7 de setembro os covardes que atentam contra a democracia e a república se recolham às suas vexatórias insignificâncias e o povo inicie uma ampla frente de reconstrução, união e pacificação do Brasil!

Pablo Lira

Pós-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve às quartas

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