A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de derrubar o tarifaço imposto por Donald Trump recoloca limites institucionais no comércio internacional. Por maioria, a Corte entendeu que o presidente extrapolou sua autoridade ao usar uma lei de emergência econômica para impor tarifas amplas sem autorização do Congresso.
Para o Brasil, abre-se uma janela relevante. Exportações de café solúvel, uva, mel e pescados tendem a recuperar competitividade no mercado norte-americano. No Espírito Santo, o impacto é direto, especialmente no café solúvel e nas rochas ornamentais, setores que geram emprego e renda.
Há ainda um efeito jurídico importante. A decisão abre espaço para exportadores buscarem reembolso das tarifas pagas durante a vigência do tarifaço, tema que já movimenta debates expressivos no comércio internacional.
Mas o xadrez geopolítico segue em movimento. Trump reagiu dobrando a aposta e anunciou uma nova taxação global de 15%, com respaldo em um mecanismo da Lei de Comércio de 1974, fato que amplia a incerteza econômica.
Curiosamente, esse novo desenho tarifário produz um efeito inesperado no comércio internacional. Ao adotar uma alíquota global uniforme, a política americana acaba reduzindo distorções que antes penalizavam alguns países de forma mais intensa. Entre os principais beneficiados nesse rearranjo aparecem justamente Brasil e China, conforme aponta o levantamento da Global Trade Alert, instituição independente que monitora estratégias do comércio internacional.
Segundo o estudo, o Brasil será o país mais beneficiado, com queda média de 13,6 pontos percentuais (pp) nas tarifas. Em seguida vêm a China, Índia, Canadá e México, com diminuições respectivas de 7,1 pp, 5,6 pp, 3,3 pp e 2,9 pp. Por outro lado, parceiros comerciais históricos dos Estados Unidos, como o Reino Unido, União Europeia e Japão sofreram aumentos nas tarifas médias de 2,1 pp, 0,8 pp e 0,4 pp, respectivamente.
Em síntese, a nova tarifa global beneficia especialmente nações que foram criticadas pelo presidente Trump em 2025 e foram impactados pela configuração inicial do tarifaço.
Isso revela um paradoxo do atual cenário geoeconômico. Medidas pensadas para proteger a indústria norte-americana acabam, em alguma medida, reposicionando países emergentes no comércio global. Para o Brasil, especialmente em cadeias produtivas ligadas a commodities e alimentos, abre-se um campo de oportunidades, ainda que cercado de incertezas sobre os próximos passos da política comercial de Washington.
Vamos acompanhar os próximos capítulos dessa novela que aumenta a instabilidade internacional e afeta negócios, empregos e renda.