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Samba

A alma carnavalesca do povo em forma de canção, através do tempo

Ninguém protesta, exalta, divulga, como o carnaval, a verdade histórica do Brasil. Pena que essas mal traçadas linhas não tenham o poder de musicar os sentimentos

Publicado em 31 de Janeiro de 2023 às 00:15

Públicado em 

31 jan 2023 às 00:15
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

paulobonates@uol.com.br

A história, qualquer história, principalmente das guerras, desde sempre é contada pelos vencedores.
Minha senhora, creia-me, ninguém protesta, exalta, divulga, como o carnaval, a verdade histórica do Brasil. Pena que essas mal traçadas linhas não tenham o poder de musicar os sentimentos, como o amor, o ódio, o protesto, a exaltação, a autenticidade, o ritmo, a coerência, a participação, a emoção, a rima, o debate, e o julgamento honesto dos sambas e de sambas de enredo nas passarelas da vida. Fora o improvisado.
Senão vejamos.
De madrugada, na minha busca secreta e insaciável por meus livros que se escondem de mim nas mais improváveis prateleiras, dei de cara com um documentário, em parte guardado na incrível estante de Aderson, meu pai, e encontrei exatamente isso: o Carnaval brasileiro através da música. Reli até raiar o dia a história real do Brasil brasileiro, em suas impecáveis letras.
Resolvi passar para vocês neste pré-carnaval capixaba os hinos cívicos de rua, morros e avenidas, ao lado do violão, do surdo, do pandeiro, do cavaquinho, do saxofone, do tarol, da caixa, do bumbo, da maraca, do agogô, do ganzá e da voz carregando a letra.
Já em 1937, Vicente Paiva e Jararaca, antecipando quem sabe o hediondo “Orçamento Secreto”, lançaram na avenida: “Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar. Dá a chupeta pro bebê não chorar’.
Respeitável público, não é de hoje que pairam os absurdos de afano do bolso nacional.
Marchinha gaiata e indiscreta, de Lamartine Babo, também é sucesso nas ruas e salões: “Aí, hein? Pensas que eu não sei, toma cuidado pois um dia eu fiz o mesmo e me estrepei”.
Em 1942, saiu uma notícia de que a concentração na Praça Onze, no Rio, o berço dourado dos sambas de enredo de então, ia acabar. E o prefeito cumpriu a promessa. Foi o suficiente para Grande Otelo e Herivelto Martins, com seus tamborins em punho, mandarem ver:
“Vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola, não vai, chora o tamborim, chora o morro inteiro, Favela, Salgueiro, Mangueira, guardai os vossos pandeiros, guardai”.
Calma, pessoal. Em 1951, Herivelto lançou o maior sucesso do pedaço: o samba “Laurindo”: “Laurindo sobe o morro gritando. Não acabou a Praça Onze, não acabou. Vamos esquentar nossos tamborins, procura a porta-bandeira, põe a turma em fileira e marca o ensaio pra quarta-feira”.
As pelejas trabalhistas também fazem parte diretamente da história. Como acontece até hoje, as punições aos trabalhadores que chegavam atrasados no serviço, era o corte no salário. Foi nessa onda que Artur Vilarinho compôs o apelo “O trem atrasou”. Chamou os amigos Estanislau Silva e Paquito, caixinha de fósforos em punho, e lá vai a história: “Patrão, o trem atrasou, por isso estou chegando agora. Trago aqui o memorando da Central, o trem atrasou meia hora, o senhor não tem razão pra me mandar embora”.
Senhoras e senhores, em todo movimento a arte imita a vida.
Fácil de fazer, pois é a mais pura realidade que vai para as letras, e fácil de cantar, porque sai do coração.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, já está fantasiado para o bloco cívico “Que Loucura”, que abre o desfile capixaba no Sambão.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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