Estava na sala de redação em plena ditadura de 1964 com os colegas José Casado, Miriam Leitão, Boquinha, Paulo Maia e grande elenco, quando eles chegaram rangendo os caninos em um Gordini azul, transportando o ódio mesclado com a mais absoluta inconsequência.
Nós os detectávamos pelo trotar nas escadas de madeira. Como chefe da equipe, o papel castrador era entregue a mim. Nem carecia ler: “de ordem superior fica proibida a divulgação da morte do estudante Fulano de Tal em luta com a polícia”. Sem assinatura, tudo mentira. Naqueles dias só sabíamos das coisas quando os valentes torturadores e assassinos contavam. Invertendo todos os fatos.
Minha senhora, a censura é sim uma forma vil de matar.
É fingida, hipócrita, cruel, e usa e abusa de sordidez como argumento. A loucura no poder fabrica delírios e alucinações como, por exemplo, atribuir-se a si próprios a medalha de herói, salvar a pátria. Segundo eles, a União Nacional dos Estudantes (UNE) tinha a missão de devorar as criancinhas em churrascos sob o comando do comunismo internacional. Tudo o que faziam de perverso projetavam para as pessoas que escolhessem para condenar.
De manhã, li a letra de Chico Buarque, o “Cálice”, que foi censurada. É um hino embaralhando a letra com o verbo calar, o encanto da censura. ”Pai, afaste de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue”, lembram?
Havia na chefia da repressão à inteligência uma certa Dona Solange. Dizem que se excitava quando convocava o maridão: “Vamos f...? Vamos, traz as músicas do Chico”.
Respeitável público, neste momento não se pode apontar para qualquer direção. Não há caminho e para caminhar não se tem ideia por onde. A família realeza atual, pai e filho, com todo o respeito, parecem mais a dupla Julio Cesar e Brutus.
A senhora já calculou quantas colheres de arroz daria para distribuir ao povo faminto do Brasil com a dinheirada dos golpes descobertos pela Lava Jato? Em plúmbeas eras no país os métodos condenáveis de interrogatório arrancavam literalmente o que quisessem a título de confissão espontânea nos porões. Não se pode negar a criatividade dos golpistas de 1964: a chefia não estava com ninguém.
Hoje, truques sobre truques vão driblando os direitos com uma técnica incompreensível, como num voo de borboleta.
Gostaria de entender melhor o que significa na essência “correr em segredo de Justiça”, para não ficar com a ideia de que é mais um modelo da censura.
Afinal, os campeões de 1964, encontrando o país à beira do abismo, afastaram os subversivos e deram passo em frente.