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Crônica

A Vitória que não cabia mais, mas coube em mim

Jucutuquara nos acolheu. Finalmente, alugamos uma casa de esquina na Avenida dos Funcionários, ao lado da fábrica de tecidos, onde tínhamos um cachorro do coração
Paulo Bonates

Publicado em 

20 jan 2026 às 01:30

Publicado em 20 de Janeiro de 2026 às 04:30

Aos 15 anos, entrei em Vitória, do Espírito Santo, com a família para morar. Foi uma viagem de ônibus  — Viação Itapemirim — em um afável leito, ar-condicionado. Vínhamos do Rio e demoramos a noite toda. Acordei ali, no bairro Campo Grande, onde pairava um agradável cheiro de mato capixaba. Meu querido pai Aderson de Britto Inglez Bonates havia sido transferido para dirigir os Correios local e minha mãe veio para a Receita Federal.
Isso foi na década de 60. A cidade, linda ilha, estava completa, não cabia mais ninguém. Foi dificílimo encontrar uma casa para alugar ou comprar.
Os jornais não traziam anúncios de moradia. Fomos residir no Hotel Império, que ficava na Praça Costa Pereira (que homenageia José Fernandes da Costa Pereira Júnior, um influente político do Império, abolicionista e ex-presidente da Província do Espírito Santo, de 1861 a 1863), conforme o Google.
Procuramos, procuramos e nada. De lá, fomos habitar em uma pensão no Parque Moscoso. O forte de lá era a comida, as acomodações razoáveis. Mas casa para alugar ou adquirir, nada.
Pensei com certa razão: não cabe mais ninguém na capital do Espírito Santo. Conseguimos uma vaga no Colégio Estadual e meu irmão, Sergio, foi para o Colégio Americano.
Jucutuquara nos acolheu. Finalmente, alugamos uma casa de esquina na Avenida dos Funcionários, ao lado da fábrica de tecidos, onde tínhamos um cachorro do coração, Boêmio Bonates, ofertado por minha avó Waldebrandina. Maravilha, afinal, fui logo escalado ao “Time da Avenida" com Leomar e Lauro Barreto, Jairinho, Augusto, Landerico, Mateus, Jairinho, e outros mais.
Era lindo aquele lugar sem saída. Fazia parte desse conjunto a delegacia, a pracinha, o Cine Trianon, a Igreja Católica, o Estádio Governador Bley, do Rio Branco Atlético Clube, dirigido pelo presidente Kleber Andrade, onde defendi com unhas e dentes o Juvenil, driblei muito e cabeceei bolas com certa elegância. O campeão das paradas.
Além do caranguejo do Davi, o imbatível bloco de carnaval, muitos botequins e uma casa lotérica. Dois líderes da boemia não podem deixar de ser lembrados: Tony Curtis e Rock Hudson, homenagem aos campeões do cinema de Hollywood.
Na rua Coronel Monjardim, passageiros ajudavam a empurrar o bonde
Na rua Coronel Monjardim, passageiros ajudavam a empurrar o bonde Crédito: Cedoc/A Gazeta
A Avenida Vitória ligava, e ainda liga, a pracinha à Praia do Canto e ao centro da cidade. Os times rivais eram o Vitória, em Bento Ferreira, e a Desportiva Ferroviária, em Jardim América, ligada à Vale do Rio Doce, até hoje.
Os colégios se espalhavam edificados com engenho e arte. Salesiano e Estadual, na direção do Centro. A Escola Técnica localizava-se por ali. O conjunto de memórias incluía lindos bondes e micro-ônibus, linha que ia de São Torquato a Jucutuquara.
Maria do Carmo Quadros e Vanda Pantoja eram amigas de mamãe, da Receita Federal. Uma morava em frente ao Praia Tênis Clube e a outra colega morava no Centro, na Rua Sete, nem me lembro se já havia calçadão.
Passou-se.
Mudamos muito de residência, na Beira-Mar, no Edifício Amazonas, na Avenida Cezar Hilal, Edifício Agribela, cujo proprietário foi um amor, nem exigiu contrato, e na Praia do Suá, na Rua Guaracy.
Então.
Vitória era um celeiro de cinemas: além do Trianon, tinha o São Luiz, perto do Parque Moscoso, o Santa Cecília, no Parque Moscoso, o Jandaia, na Avenida Princesa Isabel, o Vitorinha e o Juparanã, na Avenida Jerônimo Monteiro, e o Glória, na Praça Costa Pereira, onde está o Teatro Carlos Gomes. A Hollywood Capixaba.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, considera latir ao invés de conversar. Puro ato de estupidez. Eu é que não discuto com esse cachorro perverso.
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