Foi no palco do majestoso Teatro Amazonas, em Manaus, com 12 anos, que assisti Procópio Ferreira, cinco vezes seguidas, como fazia sempre, encenando “O Monólogo das Mãos”, de Giusepe Ghiaroni. Eram apresentações noturnas, impróprias para crianças, mas meu tio Jorge, que era na minha fantasia o dono do teatro, facilitava as coisas.
Naquele tempo, todos os espetáculos nacionais e internacionais exibiam-se lá. Lembro-me do teatro italiano de marionetes, uma perfeição cênica. Igual aquele jamais vi. Meu amado tio era gerente, contrarregra, com a digníssima missão de baixar e suspender o Pano de Boca, uma imensa e intensa cortina, de autoria de Crispim do Amaral, que retrata o encontro das águas dos rios Negro e Solimões para formar o Amazonas. O teto era a criação do mundo, na maravilhosa versão cabocla.
Eu me valia da condição do sobrinho do rei para assistir à noite – era proibido – e de graça. Ia todos os dias, e o tio fingindo que não me via “furar”.
Entra Procópio Ferreira interpretando o poema que sabia e sei de cor. Fazia um jogo de cenas com as mãos, que na minha opinião dispensava o texto. Soube, então, que tinha uma filha que trabalhava com ele, a Bibi Ferreira, e ela estava na cidade. Não participou da peça, de modo que a primeira vez que a vi foi na perfeita “Gota D’água”. Ela dourou com a perfeição de sua voz as músicas de Chico Buarque e parte dos diálogos de Paulo Pontes.
Nunca mais perdi Bibi. No velho estilo de ver mais de uma vez cada espetáculo, quase me tiraram à força de um camarote em São Paulo, quando ela fez “Piaf”, sua apaixonada expressão do amor e admiração pela francesa Edith Piaf.
Uma vez, recantou “Ne me quittes pas” (Não me deixe). Isso pouco adiantou na sua vida, separou-se várias vezes. Ela tinha bastante para dar, e deu à exaustão, preenchendo boa parte de seus 96 anos de idade.
Uma vez, assistindo a uma entrevista desta musa, ouvi sua confissão: “modéstia às favas, faço divisão de compasso em uma nota única”. Afonso Abreu sabe o que é isso.
No Rio, em uma rara apresentação solo, confessou o verdadeiro objeto de suas paixões: eu. E todos os seus fãs também. Retribuía com lágrimas profundas sempre que a escutava. Uma vez, ela estava na primeira fila quando uma artista, que fazia Bibi, cantou algo como “deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água”. Ela não aguentou e sua voz ocupou o teatro sem microfone, nem nada. A atriz baixou reverente a sua e voz. Imagine o que aconteceu com o meu coração.
Já havia lhe dado meu corpo, minha alegria.