A festa está marcada na casa do meu amigo Vitor Santos Neves, que está se mudando do Barro Vermelho para uma bucólica casa à beira do Rio Jucu. Branquinha, a doce bailarina está alegre. Rubinho Gomes discute com Evandro Brega sobre as iguarias, bebíveis e comíveis.
Sexta e sábado passados desfilaram no Sambão do Povo as escolas Pega no Samba, Novo Império, Unidos de Jucutuquara, Mocidade Unida da Glória, Imperatriz do Forte, Rosas de Ouro, Unidos da Piedade, Independente de Boa Vista, Chegou o que Faltava e Andaraí. Deu empate.
Quarta de Cinzas sai o Bloco da Porca, sob a direção de Rubinho Gomes, na Barra do Jucu. Ou então já saiu e eu não vi.
A título de lucidez geral da nação, lembro que o tempo não existe, é uma vivência individual. O real é passado, o futuro passou, morte e vida fundem-se em uma coisa só.
A memória, quando em quando, guarda, esquece e guarda, este é o verdadeiro gozo da realidade imperceptível, que alguns de nós levam à percepção do discurso do outro, ou o próprio projetado na alteridade, como no carnaval, onde todo mundo é tudo, e tudo é todo mundo.
Que prazer não controlar o tempo que a rigor não existe, é apenas uma manipulação autoritária da realidade.
E a doutora Inaura com isso?
Remexendo sacros papéis nesta madrugada solene, deparei-me com um paper escrito por minha amada supervisora e orientadora em minha formação em psicanálise, no bucólico bairro do Jardim Botânico, no Rio, onde morava.
Ela me dedicou um trabalho sobre análise do self nos seguintes termos:
“Ao brilhante colega Paulo Bonates, afetuosamente, Inaura. Rio, 24 de janeiro de 92”.
Logo eu, brilhante? Morri de paixão e ressuscitei de novo e atualizei a data. Vocês sabem que qualquer um pode fazer isso se tiver vontade.
Revejo séculos depois as várias luzes que a iluminaram e a iluminam
Doutora Inaura é, foi e será uma destacada educadora, escritora, poetisa e pioneira da psicanálise no Brasil, uma das fundadoras da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro e da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Natural de Aracaju, Sergipe, deixou várias obras. Entramos juntos na Sociedade de Médicos Escritores do Rio.
E a Barra com isso?
Componho mentalmente um samba-enredo que não sei se já passou ou vai vir. Conforme.
Quinzena passada, escreverei sobre o futuro de uma certa medicina comunitária.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, lamenta a tortura de seu irmão em Cristo, o Orelha, e pede passagem.