Minha convivência com o jornalista José Cláudio Ferreira da Rocha, o Claudio Bueno Rocha, trouxe muitas coisas à minha mente, além do jornalismo. E olha que eu cursava Medicina. O Edgar dos Anjos trouxe o CBR para ser editor-geral de “O Diário”.
Digamos que “O Diário” em termos de equipamentos não chegava aos pés do líder da imprensa na época, lá nos anos 60, A Gazeta. Mas “O Diário” ganhava em técnica jornalística. CBR, depois, já em A Gazeta, ao lado de Vinicius Seixas, e outros mais, modernizou e deu corpo ao jornalismo, especialmente à reportagem.
Boêmio e gênio, ensinou os macetes para informar o que alguém queria esconder, seu principal conceito de notícia, entre outros macetes. Eu andava colado com ele, inclusive no Rio onde conhecia ou era amigo de todo mundo.
Criou uma coluna – Satyricon – de muito sucesso, o texto brilhante garantia. De vez em quando me convocava para pentear o texto e até escrever. Chegava, dava uma lida e mandava descer para a oficina – o famoso Cospe e Desce - na verdade copydesk.
De vez em quando viajava para o Rio em sua companhia, no meu vibrante Fusca. Ele me disse que havia tido um caso com Marília Pera, sabiam?, a quem me apresentou. Adorava Medicina e eu lhe dava o troco levando-o para as sessões clínicas das quais eu participava como acadêmico. Ele adorava e eu estudava.
No lançamento da Revista Agora, CBR trouxe os jornalistas da época : Ziraldo, José Ramos Tinhorão, Fausto Wolff, Sergio Jaguaribe e muitos outros. A imprensa nacional alternativa e seu humor de resistência estavam em crise, especialmente “O Pasquim”, perseguido até a morte. Como dizia Jaguar: “É hora de abrir um novo bar”.
Com um clima de “abertura” política, driblar a censura à imprensa, ao invés de ficar mais fácil, ficou mais difícil. Já experimentei várias vezes em “O Diário” escrever matéria do grotesco do cotidiano com um policial ao lado – anteriormente eles mesmos reescreviam. Viam perigo até em cor de veículo. Paranoia, ignorância e poder, quem aguenta?
A essa altura já haviam fechado os nanicos news como o “Opinião” e o “Movimento”.
Em um editorial ainda no “Pasquim”, Jaguar com a corda enrolada no pescoço, sob o título irônico “Saudades da Ditadura”, que nessa época resistia aos trancos e barrancos, mandou ver:
“O jogo da ditadura era mais aberto. Eles prendiam e arrebentavam, não eram chegados a sutilezas”. Para ele, Jaguar, a chamada Nova República só era mais “sofisticada”, mas criava um sistema paranoico como só eles sabiam fazer. Não eram chegados a sutilezas. De repente desaparecem os anunciantes, os serviços gráficos tiveram aumento de custos de 100% e o já alto custo de papel subia toda semana. Dizia Jaguar: “E só o Klabin que fornece papel no Brasil, não adianta você dizer que vai mudar de fornecedor. Adivinha por quê? Só tem o Klabin”.
E assim caminhava a humanidade nas bancas de jornais. Sinto saudades, muitas saudades, apesar de tudo. Especialmente dos colegas de redação, Paulo Torre, Miriam Leitão, Rubinho Gomes, José Casado, Paulo Maia, Amylton de Almeida, Milson Henriques, Erildo dos Anjos e por aí vai…
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda se gabando de ser imune ao coronavírus, à Ucrânia e à Rússia.