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Crítica

"As Mil Vidas de Bernard Tapie" traz história real de ícone francês

Lançada pela Netflix, "As Mil Vidas de Bernard Tapie" aposta na agilidade narrativa e no carisma de uma das figuras mais emblemáticas da França nos últimos 50 anos

Publicado em 15 de Setembro de 2023 às 01:37

Públicado em 

15 set 2023 às 01:37
Rafael Braz

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Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Laurent Lafitte vive Bernard Tapie, icônica figura francesa, em minissérie da Netflix Crédito: Marie Genin/Netflix
Bernard Tapie (1943 – 2021) foi uma figura histórica na França. Empresário que se enveredou pela carreira política, Tapie se especializou em comprar empresas à beira da falência e reerguê-las, foi assim que se tornou dono da Adidas, além de ter ficado famoso por seu envolvimento com equipes esportivas; a La Vie Claire, sua equipe de ciclismo, foi duas vezes vencedoras do Tour de France, e o tradicional time de futebol Olympique de Marseille viveu seu auge com Tapie como presidente, vencendo quatro vezes a liga francesa e ainda uma Champions League, em 1993. No mesmo ano, porém, o clube se viu envolto em um grande esquema de corrupção que deu início ao declínio da figura de Tapie.
“As Mil Vidas de Bernard Tapie”, minissérie da Netflix, reconta a vida da figura histórica com muitas liberdades, mas de maneira eficiente. Ao início de cada episódio, a série lembra o espectador ser “livremente baseada em fatos”, ou seja, ela foi construída ao redor de acontecimentos amplamente registrados, mas sem se preocupar em ser fiel a diálogos, personagens ou nem mesmo à cronologia.
Assim, em sete episódios, “As Mil Vidas de Bernard Tapie” ganha ares épicos e uma narrativa a lá Martin Scorsese em uma jornada de ascensão, deslumbramento, e uma inevitável queda. Quando conhecemos o protagonista, interpretado por Laurent Lafitte, ele é um músico em busca de fama. As coisas não dão muito certo e ele acaba cheio de dívidas tentando emplacar algumas ideias para ganhar dinheiro e sustentar sua família. Os primeiros episódios lidam mais com a pobreza e a ascensão de Tapie, uma maneira de aproximar o público do protagonista antes de torná-lo a figura icônica.
Tapie é construído como um sujeito bonito, charmoso, cheio de lábia, e é fácil acreditar nessa figura e em seus discursos quando já se sabe ao menos parte de sua trajetória. Para os não-iniciados em Tapie, no entanto, “As Mil Vidas de Bernard Tapie” ganha um ar meio fantasioso e lúdico que faz o espectador torcer por aquele sujeito carismático que, entre erros e acertos, se mostra um cara legal. É nessa construção que a minissérie da Netflix tem seu mérito, pois coloca o público ao lado de seu protagonista, mesmo que, na verdade, ele seja um sujeito de práticas às vezes questionáveis.
Minissérie
Minissérie "As Mil Vidas de Bernard Tapie", da Netflix Crédito: Marie Genin/Netflix
Como boa parte das obras biográficas que abrangem um recorte temporal longo, “As Mil Vidas de Bernard Tapie” se perde no ritmo sempre acelerado. É interessante como os criadores Olivier Demangel (do ótimo “Atlantique”) e Tristan Séguéla optam por uma narrativa mais seca e pouco didática, mas essa escolha cobra um preço. Os saltos temporais nunca são escancarados, sendo registrados por algum fato como, por exemplo, o aniversário de um ano de uma criança que ainda não havia nascido na cena anterior. Por mais que o recurso funcione, ele também tira o peso de vários fatos importantes – como é costume nas biografias, a série pula de acontecimento em acontecimento, dando a impressão de que seus protagonistas nunca têm um dia de vida normal ou calmaria.
Mesmo cheio de imperfeições, o texto funciona como um exagerado estudo de personagem. A incansável busca de Bernard Tapie por dinheiro, fama e poder é potencializada pelas liberdades históricas do roteiro. Lafitte é ótimo como Tapie e explora as camadas do protagonista como homem de negócios e também no aspecto familiar. A série dá muita importância a Dominique (Joséphine Japy), segunda esposa de Tapie, tornando-a essencial para trazer à narrativa uma personagem feminina que não apenas ficasse à sombra do biografado.
Minissérie
Minissérie "As Mil Vidas de Bernard Tapie", da Netflix Crédito: Marie Genin/Netflix
“As Mil Vidas de Bernard Tapie” é bem escrita, bem dirigida, com ótima reconstrução de época e tem boas atuações em uma história interessante, mesmo que fantasiosa. É difícil, porém, diante de tantas muletas e liberdades do texto, separar o real da ficção. As falhas, no entanto, não estragam a experiência do espectador na jornada para conhecer a figura de Tapie como parte da cultura francesa dos últimos 50 anos – ao menos uma versão mais pop do que ele realmente representou.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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