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Crítica

"Justiceiras", da Netflix, é ótima comédia de vingança

"Justiceiras" traz Maya Hawke ("Strangers Things") e Camila Mendes ("Riverdale") em busca de vingança contra pessoas de comportamento tóxico

Publicado em 16 de Setembro de 2022 às 17:43

Públicado em 

16 set 2022 às 17:43
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
Filme "Justiceiras", da Netflix Crédito: Kim Simms/Netflix
Surpreende que um filme aparentemente tão simples e bobo tenha tantas camadas e funcione sem parecer uma grande bagunça. “Justiceiras”, lançado pela Netflix, imediatamente remete o espectador às comédias escolares dos anos 1990 sem esconder suas influências.
Somos imediatamente apresentados a Drea Torres (Camila Mendes, de “Riverdale”), a garota mais popular da escola. O filme tem início com uma narração da personagem durante uma festa em que ela afirma medir sua popularidade pela “quantidade de pessoas que querem vê-la cair”. Drea é a adolescente perfeita, a boa aluna filha da classe operária com uma bolsa de estudos em uma escola particular caríssima e que ainda conseguiu ascender socialmente no mundo selvagem do colegial.
As coisas mudam quando um vídeo íntimo que ela mandou para o namorado, Max (Austin Abrams, de “Euphoria”), é compartilhado por toda a escola e ela se torna uma pária. É depois desse acontecimento que conhecemos Eleanor (Maya Hawke), uma nova aluna também marcada por um trauma - quando era adolescente e ainda no armário, foi injustamente acusada de tentar beijar uma colega à força, o que lhe rendeu uma fama de predadora. Após um início de relação conturbado, as duas se juntam para se vingar das pessoas que foram tóxicas com elas.
“Justiceiras” constrói o cenário de uma comédia adolescente noventista, com trilha sonora da época e a famosa separação de castas na escola: os populares, os hippies, a galera do teatro, os esquisitões… e por aí vai. O texto é muito eficaz ao nos fazer odiar Max, um jovem rico, popular e com a imagem devidamente moldada para o discurso contemporâneo. Max pinta as unhas e se vende como um “aliado” feminista - ele chega ao absurdo de criar a "Liga dos homens cis héteros defensores de estudantes que se identificam como mulheres”.
Filme
Filme "Justiceiras", da Netflix Crédito: Kim Simms/Netflix
Apesar de ter na toxicidade de Max seu vilão, “Justiceiras” apresenta outro arco, a vingança de Eleanor, para tentar equilibrar a balança e não tratar o comportamento tóxico como uma exclusividade masculina. Trata-se de um arco menor, mas igualmente importante para a narrativa até para provar que “é muito mais fácil queimar a imagem de uma mulher do que a de um homem”.
Com referências que vão de “Segundas Intenções” (Sarah Michelle Gellar até vive a diretora da escola) ao cinema de Alfred Hitchcock, “Justiceiras” é bem mais do que uma comédia colegial. O filme discute diretamente o comportamento tóxico, mas também a necessidade de aceitação, o comportamento em efeito manada e o peso a ser pago pela vingança. A diretora e roteirista Jennifer Kaytin Robinson (“Alguém Especial”, também da Netflix) entende que suas personagens devem ser falhas para que compremos a complexidade delas. Assim, Drea e Eleanor estão longe de serem perfeitinhas e também se apresentam, de certa forma, como tóxicas.
Filme
Maya Hawke e Camila Mendes no filme "Justiceiras", da Netflix Crédito: Kim Simms/Netflix
Maya Hawke tem o tom perfeito entre o humor e o drama que o texto pede; já Camila Mendes mistura fragilidade e arrogância como Drea e convence na complexidade da personagem. Essa dualidade entre as duas protagonistas cria uma dinâmica ótima entre elas, uma alternância de poder, de controle, com Eleanor buscando pertencer e Drea repetindo o comportamento narcisista de seu ex. A princípio, tudo parece ser como estamos acostumados a ver, mas a reviravolta que dá início ao terceiro ato pega o espectador de surpresa e obviamente não darei nenhum spoiler aqui.
Apesar de sacrificar alguns possíveis arcos e personagens que renderiam boas histórias em uma série ao estilo “Sex Education”, “Justiceiras” é divertido e ágil o tempo todo ao ter suas atenções voltadas sempre para Drea e Eleanor. O filme ironicamente não é o que parece, mas entrega o que promete em uma trama cheia de camadas, com um excelente texto e com atuações pontuais.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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