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Crítica

"Se Organizar Direitinho...", da Netflix, prega revolução sexual

Filme espanhol "Se Organizar Direitinho...", da Netflix, trai seu discurso de diversidade e liberdade sexual com um olhar privilegiado e dentro dos padrões

Publicado em 02 de Dezembro de 2021 às 20:30

Públicado em 

02 dez 2021 às 20:30
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
"Se Organizar Direitinho..." traz revolução sexual comportada Crédito: Netflix/Divulgação
Logo no início de “Se Organizar Direitinho…”, lançamento espanhol da Netflix, uma mulher de meia-idade divaga sobre a convenção de seu casamento monogâmico. Em um devaneio, se imagina em cenas picantes com o marido da amiga, mas logo é interrompida pela culpa. Quando se dá conta, porém, percebe que seu marido muito provavelmente está se imaginando em situações similares  com a outra mulher à mesa. “Esse é o exato momento em que algumas pessoas decidem passar sua primeira noite no meu clube”, diz, olhando para a câmera.
O clube em questão é uma casa de swing ao redor da qual o filme de Paco Caballero praticamente orbita. O filme traz núcleos distintos e com histórias paralelas que nunca se esbarram. Há um casal em busca de algo diferente para apimentar a relação, o jovem em busca de sexo sem compromisso para aliviar a angústia da solidão, um reencontro familiar, duas amigas em busca de uma aliança perdida após uma despedida de solteira, um arco meio “Se Beber, Não Case”, e outra história, de dois casais mais velhos cujos homens planejam uma troca em uma noite de bebedeira, a única que transcorre fora do clube.
“Se Organizar Direitinho…” tenta se vender como “a revolução sexual espanhola”, mas é bem conservador em alguns aspectos. Há elementos interessantes a ser discutidos, como a distinção a ser feita entre amor e sexo, mas o texto de Paco é apenas um apanhado de situações organizadas entre uma ou outra cena mais picante. O argumento de "liberdade sexual" existe apenas para criar sequências mais "sexy".
Apesar do discurso libertário, o filme é bem-comportado e com nudez moderada - não há nu frontal em momento algum e apenas figurantes mostram alguma coisa. É curioso como o filme abandona algumas boas ideias, como a sugestão e o jogo de sombras de um arco que funciona bem para o que se propõe. Ao invés disso, o filme fetichiza alguns relacionamentos e práticas, tudo num clima de “vale tudo” - para uma obra que se diz uma revolução sexual, “Se Organizar Direitinho…” é bem formulaico em suas estruturas narrativas e na maneira como filma o sexo de forma não natural.
Filme
"Se Organizar Direitinho..." traz revolução sexual comportada Crédito: Netflix/Divulgação
O roteiro cria algumas situações divertidas, mas não tem uma sustentação além de questionar as convenções dos relacionamentos. Nesse ponto, o filme de Paco Caballero ensaia discutir a liberdade sexual e os relacionamentos não-convencionais desde que haja respeito entre as partes, mas esse discurso não serve como estofo para uma narrativa vazia.
A alardeada liberdade, no entanto, vem de um ponto de vista privilegiado - enquanto na relação entre homens há uma certa naturalidade, o sexo entre mulheres é fetichizado. Ainda, “Se Organizar Direitinho…” traz pouca ou nenhuma variedade de corpos, sem personagens transgêneros, sem pessoas acima do peso e sem pessoas de cor. A impressão é de que o arco dos casais maduros foi filmado à parte e incluído posteriormente ao filme para que ele oferecesse ao menos alguma diversidade, mas, ainda assim, são todos brancos e dentro dos padrões estéticos.
Filme
"Se Organizar Direitinho..." traz revolução sexual comportada Crédito: Netflix/Divulgação
“Se Organizar Direitinho…” é bem menos ousado do que acredita ser. A necessidade de ser sexy e de atrair uma audiência específica mina qualquer pretensão libertária que o texto possa ter tido em sua gênese. A revolução sexual defendida pelo filme levanta bons argumentos sobre respeito em relações, mas está longe de ser abrangente. O recorte social do filme de Paco Caballero é excludente, uma revolução branca, cis e de corpos dentro dos padrões.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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