Uma das discussões necessárias nos dias de hoje é sobre a disseminação de notícias falsas. Mas e quando as notícias são verdadeiras? O que acontece quando fatos verdadeiros chegam simultaneamente a milhões de pessoas, em velocidade praticamente instantânea?
A informação deixou de ser apenas um insumo para decisões. Ela própria passou a movimentar mercados. Em determinadas circunstâncias, a verdade pode produzir consequências econômicas antes mesmo que empresas e investidores tenham tempo para compreender plenamente o que aconteceu.
O Estreito de Ormuz é um exemplo eloquente. Cada declaração sobre a possibilidade de reabertura ou interrupção do tráfego marítimo altera expectativas sobre petróleo, fretes, seguros, inflação e crescimento mundial. Repare: não é necessário que um evento econômico aconteça para que ele produza efeitos econômicos. A expectativa de que aconteça já pode alterar preços.
Uma informação muda expectativas. Expectativas mudam posições. Posições mudam preços. É a informação interferindo na economia real.
Durante décadas, existiu uma sequência relativamente previsível nos mercados: uma empresa divulgava um resultado; analistas estudavam; investidores avaliavam; o mercado reagia. Essa sequência foi comprimida.
Hoje, uma informação pode aparecer em uma postagem, ser reproduzida milhares de vezes, analisada por sistemas automatizados e incorporada aos preços antes que um investidor humano tenha terminado de ler a notícia.
Um algoritmo pode monitorar milhares de fontes, reconhecer padrões e executar uma operação em frações de segundo. A velocidade deixou de ser apenas uma vantagem operacional. Passou a ser uma dimensão da competição.
Mas a questão tem camadas mais complexas. Estudos mostram que maior conectividade social, além de acelerar a incorporação das notícias aos preços, também pode aumentar a divergência de opiniões e o excesso de negociação.
Há diferenças ainda se a fonte é a mídia tradicional ou as redes sociais. Maior exposição às redes esteve associada a maior volatilidade e volume de negociação. O problema, portanto, não é apenas a informação falsa. Informação verdadeira em excesso, chegando rápido demais, desafia a capacidade humana de tomar decisão.
Imagine esse tipo de situação nas empresas. Uma indústria precisa decidir quando comprar matéria-prima. Um exportador acompanha câmbio e frete. Uma empresa de energia monitora petróleo e gás. Um varejista administra estoques. Uma informação pode representar uma oportunidade, ou uma decisão precipitada.
A questão deixou de ser simplesmente ter informação. Passou a ser saber qual informação merece uma decisão. Essa é uma nova competência empresarial: a inteligência da informação. Não basta receber, compartilhar ou ser o primeiro. É preciso verificar, contextualizar, comparar fontes e decidir.
Essa transformação merece atenção especial no Espírito Santo. Uma economia integrada ao comércio exterior, à indústria, à mineração, à energia e à logística está diretamente exposta às informações que circulam pelos mercados globais.
Uma notícia sobre petróleo altera custos de transporte. Um dado sobre a China modifica o preço do minério. Uma mudança nas expectativas de juros afeta o câmbio. Uma interrupção logística reorganiza cadeias de suprimentos. Assim, acompanhar o mundo deixou de ser uma atividade secundária. É parte da gestão.
A inteligência artificial tornará essa dinâmica ainda mais sofisticada. Sistemas capazes de acompanhar milhares de fontes poderão cruzar dados de mercado, notícias, redes sociais e indicadores econômicos em velocidades impossíveis para equipes humanas. Mas isso não elimina a necessidade de julgamento. Ao contrário: torna-o ainda mais importante.
A vantagem competitiva talvez não pertença a quem tiver mais informações, mas a quem conseguir separar sinal de ruído, fato de interpretação, informação de impulso. E transformar conhecimento em decisão melhor.
Não estamos apenas vivendo a era da informação instantânea, e sim a era em que o intervalo entre informação e consequência econômica está desaparecendo.
Quando uma informação verdadeira pode alterar o preço de uma commodity antes mesmo que uma empresa consiga reunir seu conselho de administração, fica evidente que informação deixou de ser apenas conhecimento. Informação passou a ser mercado.