Sair
Assine
Entrar

Economia

Brasil precisa criar alternativas ao reformismo regressivo

Recursos naturais brasileiros são alavancas importantes para a sofisticação das estruturas produtivas. Esse é um assunto que interessa ao Espírito Santo, que precisa rever o seu modelo de desenvolvimento regional

Publicado em 19 de Outubro de 2020 às 06:00

Públicado em 

19 out 2020 às 06:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

medrodrigo@gmail.com

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília, que abriga a Câmara dos Deputados e o Senado Federal
Fachada do Congresso Nacional, em Brasília, que abriga a Câmara dos Deputados e o Senado Federal Crédito: Marcos Oliveira
Publiquei recentemente um artigo de opinião no Jornal GGN com o professor Luiz Henrique Faria (Ifes) sobre o papel do investimento público na necessária reconstrução nacional. Embora cause perplexidade e incredulidade, a coalizão regressiva busca retomar o aprofundamento da agenda neoliberal entre nós, algo que está em rota de colisão com os desdobramentos multifacetados de curto, médio e longo prazos da pandemia de Covid-19. Apontarei alguns poucos aspectos propositivos e críticos que abordamos.
De acordo com o artigo postado no blog do Fundo Monetário Internacional (FMI), no dia 5 de outubro, “Public Investment for the Recovery”, assinado por Vitor Gaspar, Paolo Mauro, Catherine Pattillo e Raphael Espinoza, o investimento público terá um papel central na recuperação após a pandemia. Nesse artigo, os autores afirmam que “o aumento do investimento público em economias de mercado avançadas e emergentes poderia ajudar a reviver a atividade econômica do colapso econômico global mais agudo e profundo da história contemporânea”. Essa ação dos governos contribuirá para a geração de empregos e rendas no curto prazo.
Para Gaspar e outros, “o investimento público pode desempenhar um papel central na recuperação, com potencial para gerar, diretamente, entre 2 e 8 empregos para cada milhão de dólares gastos em infraestrutura tradicional, e entre 5 e 14 empregos para cada milhão gasto em pesquisa e desenvolvimento, eletricidade verde e edifícios eficientes”. No curto prazo, os países devem buscar elevar os gastos públicos na manutenção da infraestrutura, onde for seguro do ponto de vista sanitário.
A grande questão diz respeito ao financiamento desse conjunto de investimentos públicos. Em países com elevados recursos produtivos ociosos e inflação baixa, os gastos públicos deficitários podem, muito bem, ser financiados com a emissão monetária. A opção brasileira seguiu outro rumo. Optou-se por financiar gastos públicos deficitários, na pandemia, com a emissão de títulos públicos. Tal escolha reduz a margem de manobra do Estado, uma vez que leva “o mercado” a pressionar o governo federal por um ajuste fiscal duro no curto prazo, o que é praticamente inviável do ponto de vista do jogo democrático. Os governos subnacionais, por sua vez, já foram pressionados para acelerar a retomada das atividades econômicas.
Infelizmente, o necessário debate sobre a reforma tributária está travado no Congresso Nacional, pois a política tem grande dificuldade de enfrentar o conjunto de forças econômicas e ideológicas que aspira por uma regressividade mais brutal no sistema tributário brasileiro. O ajuste fiscal, desde 2016, vem sendo feito em benefício dos mais ricos e em detrimento dos mais pobres da sociedade, aqueles que estão endividados, desempregados ou precarizados e, consequentemente, são mais dependentes dos serviços públicos.
O darwinismo social, uma perversa tradição política no Brasil, recuperou fôlego desde 2016. A proposta de reforma administrativa, que busca blindar o aparato de repressão do Estado, garantidor da “lei e da ordem”, segue a linha da precarização dos serviços públicos para a população e promove um elevado risco de regressão patrimonialista. A “flexibilização” de regras, aquilo que alguns chamam de modernização, abrirá espaço para muitos negócios e escândalos no setor público. As mesmas instituições, que nos conduziram até este momento distópico, continuariam “funcionando” nesse novo tempo. Um “Estado facilitador”, estruturador e reprodutor de uma elevada concentração de renda no topo, será refém de acordos por cima e muito pouco democrático em uma sociedade detentora de desigualdades sociais extremas.
Para uma reconstrução sustentável e democrática nacional, é razoável que os mais ricos contribuam proporcionalmente mais em termos tributários. A reforma tributária é importante para que o Brasil se junte aos países democráticos que possuem um sistema tributário de caráter progressivo, como ocorreu após a Segunda Guerra nos Estados Unidos e na Europa socialdemocrata. Não caminhar nesse sentido é empreender uma nova fuga para frente, pois a devastação no mercado de trabalho eleva os riscos para a democracia brasileira, uma vez que as desigualdades sociais cresceram desde 2016, de acordo com o IBGE.
Segundo o DataSenado, informou a Agência Senado, no dia 7 de outubro, “quase 92 milhões de brasileiros acima de 16 anos de idade não exerceram atividade remunerada em setembro”. O auxílio emergencial federal foi importante para evitar um caos social, porém a lógica regressiva das reformas persiste. Consultada pela Agência Senado, a senadora Zenaide Maia (Pros-RN) disse que o “DataSenado mostra que o cenário trazido pelo coronavírus somente agravou a crise já existente em 2019, quando havia mais de 13 milhões de brasileiros na extrema pobreza”. Para a senadora, o governo federal não apresentou um plano de recuperação da economia.
O Brasil precisa investir pesadamente em educação, ciência e tecnologia, com enfoques regionais diferenciados, assim como outros países estão fazendo. Uma boa dose de reindustrialização, com competitividade exportadora e adição de conhecimentos, será necessária entre nós. Para tanto, os recursos naturais brasileiros são alavancas importantes de possibilidades de sofisticação das estruturas produtivas domésticas. Esse é um assunto que interessa ao Espírito Santo, que precisa rever o seu modelo de desenvolvimento regional, pois a sua estrutura produtiva “envelheceu” e é de baixa sofisticação tecnológica, não mostrando mais força para fazer a economia crescer como no passado. A reforma trabalhista precarizou o mercado de trabalho e prejudicou as firmas que dependem de vendas domésticas, derivadas da renda do trabalho.
A dependência da exportação de commodities é quase exclusivamente um fenômeno de países subdesenvolvidos. Países especializados em atividades “malthusianas” (recursos naturais) permanecerão pobres e com elevada concentração de renda, enquanto os países especializados em atividades “schumpeterianas” (inovações e retornos crescentes) serão capazes de elevar o nível de seus salários e atingir padrões de vida maiores. Do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, a especialização malthusiana é perigosa porque ela está vinculada a rendimentos decrescentes de escala, a círculos viciosos de pobreza, a grandes pressões sobre os recursos naturais e a uma baixa produtividade. O extrativismo predatório é uma herança dos tempos coloniais e não devemos retroceder a este perverso paradigma.

Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Câmara dos EUA aprova resolução que limita poderes de Trump: os avanços na tentativa de encerrar as guerras no Irã e no Líbano
Imagem de destaque
Vias da Serra serão interditadas para confecção de tapetes de Corpus Christi
Granizo permanece intacto mesmo dois dias após tempestade em Muniz Freire
Granizo permanece intacto mesmo dois dias após tempestade em Muniz Freire

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados