O fechamento do Estreito de Ormuz, descrito por Daniel Yergin como um divisor de águas, não é apenas mais um episódio da crônica de tensões no Oriente Médio. Trata-se do momento em que o sistema energético global revela a sua vulnerabilidade estrutural.
Em sua recente entrevista ao Valor Econômico, na edição digital de quatro de agosto, Yergin foi direto: “O mundo não voltará ao que era antes”. O Irã, ao assumir o controle efetivo de Ormuz, tornou-se um agente regulador do mercado de petróleo. Aproximadamente 20% do petróleo comercializado globalmente passa por ali.
Yergin lembrou que a geografia é destino. Países importadores correm para reforçar estoques, redesenhar rotas e rever as suas políticas de preços. O tema da segurança energética é questão de soberania nacional.
A crise expôs a dependência das cadeias de suprimentos construídas para a eficiência, não para a resiliência. Yergin observou que, desde 2020, a logística virou um assunto estratégico. O fechamento de Ormuz acelerou essa perspectiva em muitos países.
Arábia Saudita, Emirados Árabes e empresas estadunidenses no Iraque estudam oleodutos que contornam as zonas de conflito. A Chevron, por exemplo, chegou a considerar um oleoduto atravessando a Síria, algo que, até pouco tempo atrás, seria visto como um delírio.
A disputa entre Estados Unidos e China pelos minerais críticos ganhou contornos de uma nova corrida espacial. Afinal, a eletrificação global depende desses insumos e a sua concentração geográfica virou uma fonte de risco sistêmico. A transição energética precisa conviver com a geopolítica dura.
O fechamento de Ormuz também se soma à guerra prolongada entre Rússia e Ucrânia. Refinarias russas são atacadas, exportações de diesel foram restringidas e o país passou a importar combustíveis de terceiros. O sistema energético global opera sob múltiplos estresses simultâneos.
A globalização mostrou-se frágil diante de conflitos que se sobrepõem. Nesse contexto, Yergin destacou que o Brasil “não tem pontos de obstrução” e produz quatro vezes mais petróleo do que a Venezuela.
Em um mundo que busca diversificação e segurança, a combinação de produção crescente, estabilidade logística e distância das zonas de conflito é um ativo estratégico. No entanto, esse ativo só se converte em vantagem quando há política pública consistente e visão de longo prazo.
O fechamento de Ormuz é um alerta, pois mostra que gargalos estratégicos não desaparecem com discursos otimistas. Mostra ainda que cadeias de suprimentos precisam ser redundantes, não apenas eficientes, e que a transição energética não elimina a geopolítica, apenas a torna mais complexa.
O mundo não voltará ao que era antes e o Brasil precisa decidir se quer apenas observar ou ocupar algum espaço mais relevante. Como pretendemos nos posicionar de forma soberana, tendo em vista a necessária elevação da qualidade de vida da nossa população? Quais riscos corremos com o endurecimento das disputas geopolíticas?