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Economia

A política é o principal entrave para o desenvolvimento do Brasil neste século?

A economia tradicionalmente ignora a política, mas compreendê-la é crucial para explicar o subdesenvolvimento as desigualdades

Publicado em 13 de Setembro de 2025 às 04:30

Públicado em 

13 set 2025 às 04:30
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

saviobcacador@outlook.com

Robert Lucas (1937-2023), economista norte-americano e vencedor do Prêmio Nobel (1995), certa vez escreveu que “as consequências para o bem-estar humano envolvidas nessas questões (de desenvolvimento econômico) são simplesmente incríveis: uma vez que se começa a pensar nelas, é difícil pensar em qualquer outra coisa”.
De fato, estudar e pensar estratégias de desenvolvimento econômico para países é, ao mesmo tempo, fascinante (em função das possibilidades que isso representa) e desafiador (dada a complexidade, sobretudo política, que cerca o tema).
Nesse sentido, o debate sobre o desenvolvimento econômico do Brasil no século XXI é também fascinante e desafiador, reunindo diferentes correntes de pensamento econômico que buscam propor caminhos para a nação. Compreender essas estratégias exige um olhar sobre o próprio conceito de desenvolvimento, os desafios políticos do país e as propostas atuais que moldam a política econômica.

O conceito de desenvolvimento

O desenvolvimento econômico não é apenas crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), mas um fenômeno histórico intrinsecamente ligado à ascensão dos modernos estados-nação. Ele é resultado da capacidade de uma nação de usar o Estado e o mercado como ferramentas de ação coletiva para alcançar o aumento sustentado da produtividade e da renda por habitante por meio da acumulação de capital e da incorporação de progresso técnico ao processo produtivo.
O desenvolvimento é (ou deveria ser) um dos principais anseios políticos de uma nação, ao lado de outros como segurança, liberdade, justiça social e proteção ambiental (que passou a integrar o conceito de desenvolvimento a partir do Relatório Brundtland, publicado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU em 1987).
Embora não possa resolver todos os problemas, o desenvolvimento é a forma como o capitalismo se manifesta como uma revolução contínua na produtividade. O desempenho econômico das nações, no entanto, varia substancialmente, dependendo da sua capacidade de utilizar o Estado e o mercado para promover esse processo.
Objetivamente, o Relatório de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2025 (mas que analisa dados de 2023), avaliou 193 países e classificou 74 deles como tendo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) muito alto (acima de 0,800), o que os coloca no patamar de países desenvolvidos.
Esses países com IDH muito alto concentram apenas 17% da população mundial (1,4 bilhão de pessoas) e impressionantes 82% do PIB global, apesar de serem apenas 38% dos países avaliados. Portanto, 83% da população mundial vive em países emergentes e pobres.

Os desafios do desenvolvimento do Brasil

Os países em desenvolvimento enfrentam desafios específicos para se desenvolverem. O desenvolvimento efetivo ocorre a partir do momento em que diferentes classes sociais cooperam e formulam uma estratégia eficaz para enfrentar a concorrência internacional, sob o arcabouço de um projeto político consistente e com visão de longo prazo.
A grande dificuldade, especialmente do Brasil, está na construção de instituições (políticas e econômicas) que forneçam os incentivos adequados para o desenvolvimento econômico. E isso passa por uma construção política.
Fachada do Palácio do Planalto em Brasília
Fachada do Palácio do Planalto em Brasília Crédito: Antônio Cruz/ Agência Brasil
A questão é como transformar esse anseio político em projeto de longo prazo – um projeto de Estado – comungado pela maioria da população e sustentado politicamente. Esse é o nosso grande desafio.
Nesse sentido, Célio Borja (1928-2022), jurista e político carioca, certa vez disse que “o Brasil não tem um projeto de nação. Tem apenas projetos de poder”, frase emblemática que escancara a fragmentação política e a ausência de visão de longo prazo do país.
Nessa mesma linha de raciocínio, Cristovam Buarque (educador e político pernambucano) argumentou que “o Brasil não tem um projeto de país. Tem apenas programas de governo”, uma profunda crítica à descontinuidade e à falta de políticas públicas estruturantes em nosso país.
O Brasil, de fato, não dispõe de um projeto de desenvolvimento. Temos ideias, discussões, até propostas, mas que não conseguem ser amalgamadas num ideal e projeto de futuro.

O estágio atual do debate brasileiro sobre desenvolvimento

O debate brasileiro sobre desenvolvimento econômico pode ser dividido em dois grandes momentos.
No período entre 1930 e 1980, a principal corrente de pensamento foi a desenvolvimentista, que defendia uma forte intervenção do Estado na economia. Essa fase foi marcada por um projeto nacional de industrialização por substituição de importações, dividida em dois estágios: o primeiro de bens de consumo e o segundo de indústria de base e bens duráveis com os Planos Nacionais de Desenvolvimento (PNDs).
A partir da crise de 1929, o Brasil percebeu a necessidade de fortalecer seu mercado interno e sua produção industrial para diminuir a dependência das exportações de produtos primários e resistir aos choques externos. Assim, o Estado atuou como planejador e executor, investindo em infraestrutura e em empresas estatais.
Após 1980, o debate desenvolvimentista perdeu força. A crise da dívida, a hiperinflação e o consenso de Washington levaram ao abandono das políticas de substituição de importações e a um movimento de abertura econômica e liberalização. As estratégias de desenvolvimento passaram a ser vistas como algo a ser superado por meio da liberalização de mercados.
No entanto, a partir dos anos 2000, o debate ressurgiu com o objetivo de enfrentar o atraso econômico. A discussão se renovou em torno de novas propostas para o século XXI, como o novo-desenvolvimentismo, o social-desenvolvimentismo e a perspectiva liberal, cada uma com sua visão sobre o papel do Estado e do mercado para o crescimento e a superação do subdesenvolvimento.

As principais estratégias de desenvolvimento do Brasil em debate

O século XXI viu a retomada do debate sobre as estratégias nacionais de desenvolvimento no Brasil, após um período de dominância do liberalismo e um distanciamento do Estado dos objetivos de superação do atraso econômico. As principais correntes em discussão são:
  • A estratégia liberal: proposta por economistas como Edmar Bacha e Samuel Pessôa, esta corrente defende uma abordagem mais ortodoxa para o desenvolvimento. O foco principal é a liberalização comercial, vista como a principal medida necessária para o desenvolvimento. Essa perspectiva valoriza a eficiência econômica e defende um projeto nacional que promova uma nova rodada de abertura comercial, similar à dos anos 1990;
  • A estratégia do social-desenvolvimentismo: defendido por autores como José Roberto Rodrigues Afonso e Nelson Barbosa, esta estratégia defende um papel mais forte do Estado como indutor do investimento. Propõe que o governo inpulsione o consumo por meio da elevação de salários reais, incentive o investimento em infraestrutura e impulsione a demanda por recursos naturais. A industrialização é vista como um setor estratégico para essa corrente;
  • A estratégia do novo-desenvolvimentismo: liderado por Luiz Carlos Bresser-Pereira, esta corrente busca um papel maior para o capital privado e uma intervenção estatal mais voltada ao controle dos preços macroeconômicos. Sua principal preocupação é com a taxa de câmbio, considerada fundamental para a competitividade internacional da indústria nacional.

Conclusão

A economia tradicionalmente ignora a política, mas compreendê-la é crucial para explicar o subdesenvolvimento as desigualdades. Como observou o economista Abba Lerner (1903-1982), “a economia conquistou o título de Rainha das Ciências Sociais ao escolher como domínio problemas políticos já resolvidos”.
Entendemos (e pesquisas mostram isso) que a conquista da prosperidade econômica e social depende da resolução de certos problemas políticos básicos. É exatamente por partir do pressuposto de que os problemas políticos já foram solucionados que a economia se torna incapaz de apresentar uma explicação convincente do subdesenvolvimento e das desigualdades.
Para explicá-las, a economia ainda terá de compreender melhor como os diferentes tipos de políticas e acordos sociais afetam os incentivos e comportamentos econômicos.
O Brasil, com seu histórico complexo e os desafios do desenvolvimento, ainda busca um projeto nacional. As propostas atuais mostram que o desenvolvimento econômico continua sendo um anseio político crucial, embora a forma de alcançá-lo ainda esteja longe de um consenso.
Os desafios políticos brasileiros têm um impacto direto e profundo sobre o desenvolvimento econômico do país – e não é por acaso. A instabilidade política, a polarização ideológica e a falta de consenso sobre reformas estruturais criam um ambiente de incerteza que afasta investimentos, paralisa decisões estratégicas e compromete o crescimento sustentável.
Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista e ex-ministro) afirma que "sem um projeto nacional de desenvolvimento, o Brasil continuará sendo um país de potencial não realizado", um apelo direto à formulação de um plano estratégico com sustentação política para o progresso sustentável do país.

Sávio Bertochi Caçador

É economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

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